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          autoria de Eliane Marques Colchete de Morais, escritora e pesquisadora independente em ciências humanas e filosofia, autora dos livros "O Pós-Moderno, Poder, linguagem e História", "Riqueza e Poder, a Geoegologia", Filosofia, Ceticismo, Religião, com um estudo sobre Diógenes Laércio", "Contos da Musa Irada", "Contos do Espelho", blogs na internet e títulos em parceria com Luis Carlos de Morais Junior, como "Laboratório de Letras", "Formação da Filosofia Contemporânea" e vários títulos, mais informações em https://www.facebook.com/lui.morais/ 

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NENHUMA AUTORIZAÇÃO ME FOI PEDIDA OU POR MIM CONCEDIDA PARA INTERVENÇÃO NA MINHA PRODUÇÃO ESCRITA OU NO MEU COMPUTADOR OU PARA REPRESENTAÇÃO DA MINHA PESSOA OU MINHA PUBLICAÇÃO. QUALQUER AÇÃO SIMILAR DEVE SER CONSIDERADA CRIME SUJEITO A PENALIDADE CABÍVEL CONFORME ARTIGO 154 DA CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA CONTRA HAKERISMO E ARTIGO 146 – A CONTRA INVASÃO DE PRIVACIDADE;

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   Este blog contem

      1) O meio e a mensagem

      2) Três esquemas de contos infantis

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O Meio e a Mensagem :

sexo e sujeito na sociedade midiática

Eliane Colchete / texto em elaboração desde maio 2023

Introdução

O texto que estou apresentando aqui é um esboço, elaborado em algum período entre 2012 e 2015, que até agora nunca tinha sido publicado. O texto publicado aqui está sendo revisado e acrescentado em 2023. Nesse intervalo de anos, voltei algumas vezes ao arquivo original e acrescentei vários trechos que evidentemente salvei em pen drive, mas como ocorre com frequência até pen drives se encontram alterados não sendo possível localizar o que foi salvo, com a peculiaridade da alteração atingir trechos acrescentados, e até mesmo - pasme-se - se constatar repetição de trechos que haviam sido descartados. Isso sem falar na veleidade dos cínicos, pelo que palavras são alteradas, etc.

Nessas deploráveis condições do pensamento contemporâneo, de ditadura de mercado de aparelhos computacionais intrusáveis sem opção à escrita privada, não havendo com que contar com a polícia que se nega a investigar a identidade da intrusão computacional, é preciso agora acrescentar a consciência de estarmos ameaçados por uma ditadura mundial hitlerista neonazista cuja articulação é a mesma dominação de mercado transnacional do capital imperialista de mentalidade paranoico-persecutória homicida, cujo sadismo é o mesmo das dominações arcaicas, cujo ódio aos direitos do ego privado e a mera existência da individualidade é patente, porque desafia o narcisismo dos que se pretendem papeis integrados de alguma totalidade mítica despótica.

Os USA e a Otan são responsáveis pela presente ameaça ao mundo por parte do golpe de Estado explicitamente neonazista, como na Ucrania atual que a Russia de Wladimir Putin está contestando na defesa bélica da etnia russa na região do Donbass, que como várias etnias e grupos sociais foram atacadas pelo regime insano. Mas assim como nas atuais intervenções estapafúrdias dos USA-Otan no conflito separatista estritamente situado do leste europeu, para apoiar um regime hitlerista de atrocidades condenado há muito pelos próprios USA na Segunda Guerra, desde há várias décadas também são os USA responsáveis por golpes nas regiões do terceiro mundo, para impor o monopólio dos carteis multinacionais norte-americanos, europeus e japoneses, golpes que tiveram as mesmas práticas mas se isentam da ostentação hitlerista que Putin está combatendo.

O que está ficando assim evidente na globalização é que nazismo e colonialismo são o mesmo. Atrocidades genocidas, propaganda de terror psicológico, escravização, inferiorização, todo tipo de prática aversiva aos direitos humanos que a propaganda do progresso impedia até agora de tornar factualmente associada ao patrocínio e organização de instituições públicas do capital multinacional e dos governos de Estado assim designados "desenvolvidos". Mas mesmo sem o nexo definido da barbárie com o imperialismo - definição pela qual não há poder de corrupção de classe em nível de economias nacionais, somente à escala da dominação geopolítica imperialista - há muito que a corrupção contra a democracia está tematizada não apenas pela informação da história efetiva, mas em nível de expressões conceituais e/ou estéticas em temas visando as mentalidades e as estruturas subjacentes às práticas de propaganda e demais formas de reprodução da dominação.

Na guerra que, como na Russia de Putin, se impõe contra o extermínio da humanidade por grupos de patologia psicossocial hitlerista associados ao capitalismo já info-midiático, a informação e a resistência do pensamento ao avassalamento tecnocrático obscurantista formam um dos componentes mais importantes. Basta ver que até agora a consciência de que os USA e grupos neonazistas europeus estão apoiando um regime explicitado hitlerista se reserva a poucos, com uma indústria de fake news e distorções silenciando sobre o fato principal no conflito separatista atual do Leste europeu.

Quando se tornar de conhecimento público efetivo a natureza do regime que os USA e governos europeus antagonizados pelos próprios cidadãos que já sabem a verdade estão apoiando, não temos dúvida de que as populações e governos que não querem ser genocidados irão se opor firmemente aos USA-Otan e apoiar a Russia. Os conflitos separatistas na Europa recente tiveram êxito na estruturação de regiões independentes como as oriundas da guerra da Bósnia e as repúblicas tcheca e eslováquia, e assim é o que se espera ver também a libertação do Donbass russo. Mas nesse caso a intervenção imperialista está sendo notória como o opróbio do novo século, além de que escandalosamente a agressão ucraniana a etnias é de teor explicitado hitlerista.

O texto que estou publicando agora se endereça à temática da dominação propagandística que visa a redução da personalidade a autômato do consumo numa sociedade de valores impostos e contrários à autonomia da personalidade, bem inversamente à legalidade assim como em Piaget, o âmbito da reciprocidade e da legislação de responsabilidade unicamente dos sujeitos mesmos a que ela se aplica. Essa redução foi tematizada por vários autores em torno dos anos cinquenta, desde o conceito adorno-horkheimeriano de "pseudomercado", uma economia empresarial movida a propaganda e diversão, apresentado em "A Dialética do Esclarecimento, fragmentos filosóficos" à crítica de Marcuse, especialmente em Eros e Civilização, ao que ele conceituou como redução dos comportamentos ao critério do desempenho imposto por algo como um "establishment" que desloca o conceito liberal de sociedade constitucional. Nessa trajetória do pensamento que não é apenas crítico, produzindo na verdade categorias sociológicas pertinentes e assim aptas a munir políticas saneadoras consequentes, aqui estaremos acrescentando as impressões de vários autores, focalizando porém as reflexões de Marshal McLuhan e David Riesman. Estes dois referenciais mostram especificamente como o sexo foi canalizado para se acomodar a um comportamento ao mesmo tempo massificado e ligado ao consumismo mercadológico como "novo" análogo da subjetividade.

Baudrillard é um ápice na trajetória dessas formas de análise do comportamento na sociedade de consumo, não só pelo conceito de mercadoria como "sistema secundário de objetos", quando já não se trata apenas de fabricar produtos considerados necessários, no que seria um sistema primário, mas da estetização fabril do produto relacionada ao discurso das qualidades estéticas como veículo da propaganda. Não só pela análise desse discurso, mas também pelo foco no deslocamento da subjetividade pela estetização mecadológica, já não como na definição marxista do fetichismo da mercadoria, pelo que as relações entre os homens são moduladas como relação entre coisas, mas pela redução anuladora do sujeito pela qualificação propagandística dos objetos. Enquanto Adorno e Horkheimer refutaram a pretensão positivista-cientificista de ser suficiente para a evolução psicossocial, uma vez que o autoritarismo decorrente dessa posição resulta numa manipulação do sujeito, o que precisamente solapa a autonomia subjetiva e portanto define uma regressão narcísica, Baudrillard mostrou como o discurso estetizante do objeto na propaganda atua de modo específico a evitação da consequência como processo psíquico que vai dos significantes puros, os traços constitutivos da coisa, a uma sintaxe produtora de significação do objeto. Entre a coisa e o objeto podemos pois demarcar toda a distância que Baudrillard mede entre a limitação do discurso estetizante propagandístico-mercadológico a justaposição de sinais, uma quase-linguagem ou código, e uma verdadeira linguagem que comporta relações efetivamente pensáveis, conceituáveis. Dessa limitação resultando a regressão anal como mania decompositora do objeto, degradação que o filme de Godard, "O Desprezo", exemplificaria na fala inicial da personagem de Brigitte Bardot, decompondo o corpo feminino nas partes consideradas sedutoras.

Toda a trajetória que estamos examinando deveria estar relacionada a estudos como o de David Halberstam em "The Powers that Be" (desconheço tradução brasileira), a propósito do açambarcamento capital-midiático dos processos sociais, desde o controle eleitoral, por meios de monopolização dos canais de financiamento e especialmente pela manipulação propagandística vendável da imagem dos políticos, ao controle sobre a cultura por diversos modos. Não só a censura rigorosa sobre a informação publicada nos mass midia pelos seus proprietários, de modo a eliminar ou truncar informações verídicas ao conhecimento do público para tentar condicionar a opinião, ou a programação culta e socialmente saudável para restringir as apresentações ao níveis não só banalmente infantilizados mas ostensivamente sedutores aos baixos instintos. Mas pelo crescente monopólio dos mass mídia como veículo de cultura, recalcando a heterogeneidade das produções e o letramento escolar.

Argumentou-se que essas formas de terrorismo midiático eram típicas da América do Norte, e é algo irônico que enquanto intelectuais norte-americanos dos anos oitenta consideravam que o terceiro mundo não tem cisão de público e privado, desde várias décadas antes intelectuais europeus tinham o hábito de atribuir a inexistência dessa cisão aos norte-americanos. Estatísticas e do contraste foram ostentadas, como na campanha de Jacques Fauvet, diretor do Le Monde nos anos setenta, contra a "mídia intoxicante" de apelação violenta, na defesa do livro e da imprensa escrita (ver a entrevista de Fauvet na Enciclopédia Salvat, volume sobre "As notícias e a informação"). O próprio Halberstam ressalvou que o monopólio midiático sobre as fontes culturais era algo típico dos americanos como uma defasagem relativamente a demais países desenvolvidos, e também Raymond Aron ironizou, em "O espectador engajado", que o controle terrorista sobre a informação era uma característica da mídia não europeia, pois na Europa o proprietário só se antagonizava com um ou dois temas, não se intrometendo com o resto quanto aos informes dos repórteres. E de fato as constatações de Riesman sobre a mudança social no capitalismo recente se atém ao contexto norte-americano, onde caberia aqui ressaltar a observação de Pierre George ("O mundo atual") a propósito de se tratar nos USA de um neocapitalismo, diverso do europeu clássico porque uma produção focalizada nos bens de consumo, enquanto a europeia focaliza os bens de produção ou indústria de base. Essa indústria dos bens de consumo seria acoplada tipicamente a uma psicologia social de alocação do produto no mercado consumidor - o que torna possivelmente relevante o fato de Watson, o pai do behaviorismo, que se gabava de poder fabricar qualquer qualificação em qualquer pessoa, por condicionamento, ter se tornado influente no negócio de propaganda após ter sido rejeitado pelos seus pares na psicologia devido a um divórcio escandaloso e um segundo casamento (cf. Hillix e Marx, "Sistemas e teorias em Psicologia") .

É bastante quanto a isso lembrar que até hoje não há nem mesmo no Brasil nada parecido com a propaganda eleitoral como há na América do Norte, onde se ostentam anúncios de candidatos lado a lado com os de Alka-Seltzer e marcas de cigarro. Porém a americanização do mercado tem sido uma constante internacionalmente após 1945, e como vimos análises críticas similares a de Riesman quanto à mudança social do capitalismo recente foram comuns também na Europa. Recentemente no Brasil "globalizado" houve a monopolização da campanha eleitoral pela imagem de artistas, inclusive interenacionais que aqui vinham se apresentar, obrigando assim aos jovens que iam a shows compactuarem com o explícito direcionamento deles ao voto, e um loby direcionado na imprensa. Comparado ao que a prática do anúncio pago seria até mais discreto. Não importando o quão impactante tenham sido as denúncias anteriores à globalização, nada se compara ao monopólio da "indústria cultural" na era da revolução microinformática, a que tenho designado "dominação info-midiática" em que empresas tem monopólio planetário. Por aí ao menos uma proposta de definição da pós-modernidade, como era pós-industrial, deixou de ter sentido, uma vez que a revolução micro-informática transforma e amplia radicalmente os setores de informação e serviços como a definição poderia prever, ela é basicamente um ramo de negócios industrial que açambarca a pesquisa científica.

Assim também não seria negligenciável observar que entre os anos setenta e oitenta, até a globalização nos finais dos anos noventa, houve uma tendência "politicamente correta" na linguagem midiática, provavelmente decorrente não só da trajetória crítica que nessa altura se tornara influente - nesse sentido a publicação de Halberstam nos anos oitenta parece ser um ápice. Mas também dos tempos da liberação proveniente dos movimentos sociais como maio de 68 e similares, assim como a mentalidade que os nutria. O que não devemos a meu ver confundir com a exploração comercial ou a "decadência da burguesia", ainda que indubitavelmente a propaganda da liberdade ocidental tenha sido investida na época da guerra fria. Mas de fato sendo antes fenômenos de contestação ao status quo e mudança social culturalmente embasada tanto na própria trajetória, por aí a constatável influência, como em transformações nas ciências humanas, keynesianismo, democratização do ensino, generalização de bens culturais baratos pela proliferação de mass midia editorial - o best seller citado de Halbestam, com mais de mil páginas, está editado em papel jornal, livro de bolso, assim também o francês de Claude Julien sobre o imperialismo americano - fluxo de intelectuais europeus na América, fluxo de intercâmbios multiculturais nas artes e na sociedade como influências negra, latino-americana, oriental, e também a influência política do próprio socialismo, não obstante expoentes de esquerda local, inclusive reichianos, repudiarem as revoluções do comportamento, sexuais, etc.

A globalização e generalização do neoliberalismo econômico representou uma regressão chocante dos programas midiáticos e publicidade, até agora, no bojo de um fechamento social repressivo notável. Tratam-se na mídia atual da praga de ostentação de valores nazistas assassinos, encenação de contrastes genotípicos violentos, perseguição aberta a pessoas da sociedade que não tenham motivos de competição ou patologia social paranoica, etc., tudo o que faria inveja até a um Jim Aubrey, o produtor da cbs que segundo Halberstam introduziu o baixo parâmetro na televisão nos anos cinquenta, inclusive a exploração sexual da imagem feminina jovem. Isso, além do principal fator de mudança história atual, que ainda está inefável, a saber, a ruptura da privacidade de documentos privados, escritos ou civis, pelas possibilidades de falseamento dos conteúdos ou de molestação radical por agentes de intrusão computacional por parte de agentes particulares ou políticos.

Um tema também não negligenciável é a relação de mídia e esquerdas. Não basta observar que a mídia persegue a esquerda - ou perseguia, antes dos tempos atuais do "comunismo de mercado" e diversificação pragmática dos interesses políticos, conforme já observamos a propósito das eleições recentes no Brasil. Mas também não basta ripostar que não há nada no capital de mídia atuando nos países não totalitários que se assemelhe ao que nestes ocorre programaticamente. Pois, sem pretender justificar absurdos - como os que tenho divulgado como o projeto de Samir Tabet de usar a mídia para perseguir personalidades não por ele julgáveis científicas - o que poria fora da ciência Feynmans, Einsteins e Prigogines, que definitivamente não se ajustam ao avesso de sonhadores poéticos - e até línguas como o árabe ainda não reformulado pela tecnologia, ou como a crítica de Heloneida Studart às donas de casa julgadas por ela todas retardadas mentais assim como exemplificaria o fato de se oporem a programações violentas da mídia - quando se trata de políticas de cultura nacionais nos países comunistas as leis são explicitadas, enquanto a liberdade de expressão é garantia constitucional dos países ditos liberais. E aquilo de que se trata na trajetória crítica que estamos estudando é o contraste entre a legalidade instituída e as práticas reais nessas sociedades capital-imperialistas.

O incremento das práticas ilegais e para-legais que foram típicas do imperialismo na regiões colonizadas é pois o traço conspícuo da história recente, invadindo cada vez mais a sociedade colonizadora. A sociologia do crime mostrou que as taxas de criminalidade são protagonizadas não por indivíduos de status usualmente alvo de preconceito pela condição de carência ou cor da pele mas pela firma norte-americana. Assim vemos que a diferença entre a sociologia operacional, que lida com taxas, e analítica como a de Riesman, na verdade define menos do que parece. Como Claude Julien mostrou a propósito da ação do capital de mídia na iniciação e estrutura do imperialismo nos USA, fica claro que não podia ser de outro modo, o capitalismo sendo imperialismo implica algo bem oposto à empresa racional-legal weberiana ou ao desenvolvimento técnico marxista, ambos concebíveis como desenvolvimento intrínseco do que seria a cultura europeia evoluindo de uma origem grega clássica. O "Confissões de Mario Puzzo e revelações do Chefão" sugere a linha funcional de explicação da generalização do suborno na normalidade burguesa norte-americana, assim em termos de necessidade de complementação dos salários que na verdade ficam aquém dos padrões de consumação propagandística. Tem circulado na internet documentários como "nova york contra o crime" e filmes como "o irlandês' de Scorsese, mostrando a total subsunção da indústria, comércio e sindicatos norte-americanos pelo crime organizado principalmente italiano. Mas de fato a explicação é mais estrutural, a meu ver, a partir da necessidade dos grupos que forçam a mudança da democracia para o imperialismo, dominarem também internamente, alijando pois os grupos e instituições legais - como especialmente Claude Julien e Halberstam documentaram a propósito das atividades do capital midiático. Já o AFL-CIO, a maior central de sindicatos norte-americana, foi documentada fornecedora de capitais para atuação imperialista da CIA no exterior, o financiamento dos golpes por ação ilegal da CIA no Irã e América Latina foi feito pelas multinacionais, lá petroleiras, aqui de vária extração, etc.

Aqui estarei focalizando a especificidade do tema do sexo nessa trajetória da crítica da cultura recente, portanto visando especialmente McLuhan e Riesman. Essa trajetória temática pode não parecer diretamente relacionado ao tema capital da ameaça neonazista hitlerista que paira sobre nós explicitamente, agora, com necessariamente implicação do ônus do investimento bélico, algo impensável antes da "globalização" dos anos noventa.. A propósito do que, como Putin explica, "Operações de combate em grande escala envolvendo armas pesadas, artilharia, tanques e aeronaves não param em Donbass desde 2014", como meio de agressão dos hitleristas às etnias. "Tudo o que estamos fazendo hoje, como parte da 'operação militar especial', é uma tentativa de parar esta guerra. Este é o sentido da nossa operação – proteger as pessoas que vivem nesses territórios." (https://oantagonista.uol.com.br/mundo/vitoria-da-russia-na-ucrania-e-inevitavel-diz-putin/)

Assim, trata-se de parar o nazismo hitlerista que desde os anos oitenta até agora transita da agitação social ao golpe de Estado ucraniano, o que a Russia está vitoriosamente combatendo. Contudo é preciso refletir sobre os motivos do cegamento da sociedade ao risco que corre pelo nazismo, a identificação com valores da violência imperialista arcaica. A trajetória crítica que estaremos focalizando visa definir as estruturas institucionais, i.e., os discursos que abrangem mensagens e práticas pelas quais a sociedade imperialista funciona de modo aversivo à liberdade constitucional que a evolução da humanidade favoreceu, como legalidade e emancipação subjetiva, de modo que o neonazismo não parece já algo fortuito, se decorre da explicitação do que estava difuso a partir da mudança da burguesia, desde agente das independências nacionais à exploração das potências neocoloniais e após 1945 francamente imperialistas ao nível propagandístico de "superpotência". É bastante conhecido o fato de que nessa mudança que data da transição do século XIX ao XX, a individualização dos agentes sociais foi antagonizada pelas formações monopolísticas que açambarcaram o mercado contra a livre empresa, mas o nexo com o imperialismo ainda não foi por toda a parte equacionado a ponto de mudar a definição do capitalismo como assimetria internacional do capital, do colonialismo ao imperialismo. Também não se tornou ainda bastante corrente a natureza da mudança social que os autores que aqui estamos referenciando tem conceituado, mesmo se eles não são de modo algum desconhecidos. O papel do sexo a partir da inclusão dos antagonismos de "gênero" - não apenas as funções sociais ligadas à fisiologia - na teoria social desde o que vem se designando pós-modernismo tem se tornado sempre mais relevante, mas a relação entre os antagonismos de gênero e a mudança social mais ampla relacionada à natureza do capitalismo tecno-midiático ainda não está desenvolvida, ainda que entre Riesman e McLuhan já tenha havido a inclusão dessa problemática.

Se há algo que devemos pois pretender garantir por todos os meios, é a segurança do sujeito emancipado, que a modernidade prometia sem cumprir, e que tem tornado a alçar a voz depois de ter sofrido a decepção das pretensões de grupos supostos privilegiados pela própria marcha da história.

II)

"A Multidão Solitária", título do livro de David Riesman lançado em 1950, conserva um interesse atual que transita do seu locus originário, a sociologia da cultura na sociedade industrial, a algo da amplitude de uma filosofia da história interessada na auto-concepção da "Modernidade" como agência do assim designável "Ocidente". Em contraste com o conceito oitocentista do ser "autodirigido", orientado por e para si mesmo, esse ser que exclusivamente na modernidade ocidental teria se produzido como produto da emancipação histórica, Riesman constata nas sociedades capitalistas do século XX, exemplarmente a América, um ser que ele conceituou "alterodirigido" que não deixa de se supor um ego, não se confunde imediatamente com aquele comportamento de massas que conforme Freud ("Psicologia das massas e análise do eu") entre outros autores é o oposto da inteligência e percepção próprias de um ego desenvolvido. Não solvido na inconsciência coletiva que Freud tão habilmente analisa de modo bem irredutível aos idealismos de Jung, o "alterodirigido" de Riesman é porém ainda um ser que espera que as ações próprias estejam em conformidade com a dos demais, agindo somente conforme esse imperativo. As ações próprias não são para o sujeito, mesmo se elas são do sujeito - conforme o que podemos usar aqui da terminologia de Hegel opondo o "para si" ao "em si".

Com o sujeito alter-dirigido, esse novo paradoxo da propaganda ou indústria cultural, o correlato de uma tradição que se pudesse analisar como a um discurso incorporado atuando como meio de sentido, significados ideais co-extensivos a uma série de práticas comunitárias, interligadas, que constituem papeis sociais, não é o que compõe o que contudo subsiste na forma de um "establishment", a série de requisitos formais dos quais depende o status da pertença sujeito-sociedade.

Aqui eu desejaria aproximar as análises de Riesman a propósito do comportamento "alterodirigido" ao conceito de Marcuse da sociedade industrial como "establishment". Inversamente ao universo da legislação dos legisladores, conforme a moral autônoma de Piaget como conceito apto a captar o espírito das constituições nacionais, o "establishment" é um mundo de normas cujo fundamento é avesso ao princípio da mobilidade social que devia estar subjacente à promessa burguesa da emancipação subjetiva e do pressuposto industrial da ascensão universal da qualidade de vida. O establishment dispõe o princípio do "desempenho" que se internaliza como mundo de obrigações discriminantes dos sujeitos enquanto correlatos de ocupações e deveres prescritos.

Porém é a priori, é um aparato legal, não meramente coletivo no sentido sociológico do termo, o primitivo "comunitário" oposto ao desenvolvido como à "sociedade" de contrato, conforme o sentido estrito desses dois termos, a gemeinschaft e a geselschaft , que a sociologia de Weber, Tönnies e outros consagraram. Isso, ainda que após 1945 essa oposição já houvesse sido superada para se atribuir também à gemeinschaft o status de "sociedade" mas conservando-se a oposição agora nomeada entre sociedades tradicionais, primitivas e/ou antigas, e sociedades desenvolvidas, industriais. Aqui precisamos fazer espaço a uma consideração sobre essa demarcação sociológica, até podermos retornar ao tema.

A oposição inicial de comunidade e sociedade foi superada de um modo abrangente porque já se admitia que sociedades tradicionais pudessem evoluir, por aí a emergência do conceito de sociedades em desenvolvimento - que desde o Clube de Roma, nos anos setenta, tornou problemático devido a questão ecológica do crescimento industrial, mas foram outros motivos, mais na ordem geopolítica como a mudança do capitalismo para a "globalização" de multinacionais e reserva de saber tecnológico integrado, que implicaram a atual cartografia geopolítica planisférica definida nos termos do conflito norte e sul, exclusivamente sociedades desenvolvidas e sub-desenvolvidas definidas por critérios econômicos e níveis da qualidade de vida. Como essa atualidade está ligada à emergência do que se tem proposto como pós-modernidade, vemos que na perspectiva histórica da mudança considerada o conceito de modernidade como processo planetarizável da emancipação do Homem prevaleceu com o sentido de sociedades em desenvolvimento, ao contrário da sociologia de inícios do século passado em que o processo emancipatório era pensado criticamente como possível apenas por substituição do primitivo pelo civilizado.

Na atualidade portanto temos um paradoxo histórico, pois por um lado pensamos em termos de modernidade, processo emancipatório global, mas por outro lado o limite ecológico e a reserva de patentes das multinacionais se antagoniza a essa constante de dois séculos de teoria política e pensamento humano. A terminologia do "império" tendeu a substituir a de "imperialismo" desde pelo menos o livro de Claude Julien sobre a América, publicado em 1968, como uma consciência pervasiva da regressão ao estado de segregação colonial que sustentou tipicamente as monarquias absolutas do século XVII. Estudos mostrando a natureza recolonizadora da "globalização" ("internacionalização da economia") são agora urgentes.

A pós-modernidade como rubrica que vem sendo proposta desde os anos oitenta não foi inicialmente pensada nos termos de uma dicotomia paralisante assim, mas bem inversamente, no auge da propaganda liberal do estado de bem-estar social keynesiano, as teorias pós-colonial, feminista, e similares marcaram a mudança dos produtores culturais, desde aqueles que falavam pelas minorias e tribos primitivas descobertas pela "vanguarda" estética e ciências sociais dos inícios do século XX, aos próprios sujeitos desses status marginalizados, que não almejavam estabelecer nenhum outro "centro", mas sim desfazer a oposição centro-margem, temática essa familiar mesmo na teoria pós-estrutural como em Derrida. Mas irredutivelmente até ao pós-estruturalismo, esses sujeitos, de modo explícito e consciente ou nas bordas do que expressavam, não reconheciam mais qualquer unicidade do "ocidente" como agência da "modernidade", nenhuma totalização possível da cultura ou da sociedade, atravessadas como são por práticas e origens heterogêneas, enquanto por outro lado, aparatos de emancipação supostos unicamente pensáveis na modernidade vinham sendo descobertos atribuíveis a expoentes de culturas não moderno-"ocidentais". Hoje, ou já desde os albores do século XXI, porém, a "globalização" impondo por meios mecânicos a padronização midiática de linguagens e comportamentos, em meio às mudanças que situamos, torna mais complexo ainda o estatuto do termo "pós-moderno". O interesse da concepção do sujeito alterodirigido de Riesman como epifenômeno da sociedade imperialista se torna pois bem atualizado.

Como vimos esse conceito se mostra adequado ao sujeito do "establishment", que não pelo fato de ser um universo de normas de desempenho pre-estabelecidas, deixaria de ser conceituado como sociedade industrial. Como aparato legal o establishment não está necessariamente representado discursivamente na mente do sujeito. Ele pode conhecer os códigos que estabelecem-se como leis, mas o quanto possa perceber, sabe que é tão complexo que só um especialista, um advogado, um juiz, e profissionais correlacionados realmente o apreendem, e mesmo assim a forma da apreensão é como entre um cientista e sua ciência, não ao modo de um sacerdote e a doutrina religiosa que professa.

Os textos que aqui estudaremos a propósito do status alter-dirigido do sujeito da consumação desde o século XX nos permite relativizar a confiança que ainda Franz Fanon conserva, entre o estado anômalo de casta, quando se trata da pseudo-burguesia dos países sub-desenvolvidos, testas-de-ferro do imperialismo, e o que seria a burguesia propriamente dita dos países centrais. Pois não há apenas uma contradição visível nisso pelo que a burguesia desenvolvida é não o modelo da modernidade como progresso político e científico do liberalismo constitucional, mas a agência da dominação da margem. Resta a questão da mentalidade dessa burguesia cujo caráter de agência dominadora em total contraste com a propaganda da modernidade precisa se expressar de algum modo ao nível da mentalidade.

Essa forma de apreensão da sociedade como" establishment", conforme o termo de Marcuse, desde a segunda metade do século passado, não rompe porém com o que até aí era visado como a modernidade, a condição formal do pensamento contemporâneo naquilo em que se expressa objetivamente, isto é, no modo concreto (expresso) da filosofia e nos modos históricos das práticas possibilitadas pelo "establishment". É de um modo irredutível a qualquer sociedade tradicional que a ordem civil pode ser pensada na sociedade industrial ou modernidade, como vimos. A forma pura da lei, a priori transcendental, isto é, constituindo a disponibilidade de cada um à sua instituição em geral antes que à regra da identificação de cada um a um conteúdo prescrito de dever, foi o primeiro meio pelo qual o pensamento expressou e/ou apreendeu o que após 1945 tem sido criticado e conceituado como o establishment.

Não há agora um relato que pudesse conter, como uma explicação de sua origem e entrelaçamento mútuo, ao mesmo tempo o conteúdo das leis – como eram os antigos mitos ou a bíblia. Elas estão dispersas como itens correlacionados a fatores independentes do vir a ser do social, num corpo mutável, temporalizado, como o da constituição, em função do seu ser tanto universal quanto em discussão no tocante ao seu caráter adequado aos fatos, eles mesmos temporalizados, históricos.

Refletindo mais detidamente, vemos que a série de condições de pertença ao "establishment" não recobre o paradoxo da totalidade em devir, quanto ao conteúdo constituído-discursivo, que perfaz a lei na modernidade. É algo como o seu núcleo ideativo, sua condição material de possibilidade, as condições concretas como as que prescrevem a legitimação em geral da nacionalidade ou da profissão.

Esse nível da decisão da pertença é formal, e instituiu um outro paradoxo, pelo qual o sujeito da vontade da lei em geral só é constituinte na sua relação com a generalidade da lei em termos de generalidade de direitos e deveres, por sua já anteriormente instituída como legal relação. Pois ele mesmo não é nem pode ser um sujeito em geral, aristotelicamente redutível ao seu papel social-legal, este que formalmente nem mesmo existe pois teria que ser uma prescrição unitária do que o sujeito existencialmente "é", mas tal prescrição não é nem pode ser pensada na forma de uma lei constituída.

Com efeito, a reflexão desse nível formal em que porém é o sujeito pensável que fundamenta o espírito da lei, introduziu na história o pós-kantismo, de Fichte e Schelling à preponderância, nessa matéria, de Hegel. Mas como vemos o establishment não opera à base desse princípio da modernidade ou evolução social-legal, ainda que se arrogue a radicalidade da modernização. Isso na medida em que o nível condicional da pertença na sociedade de "establishment" interpõe o paradoxo de uma generalidade que contudo só pode ser pensada como singularidade, um a priori formal que só pode ser realizado como condição material, histórica. Ele deslocou assim todo pensamento possível do sujeito, incorporado ou na abstração da generalidade da incorporação, para o âmbito do que se designou o sujeito-objeto. O modo como isso foi feito e o que veio a se interpor a partir dessa terminologia assim como utilizada não é algo redutível ao transcendental kantiano da razão. O sujeito-objeto não é só aquele que porta em si como Razão as condições da apreensão objetiva, ele é aquele que necessariamente se apreende na apreensão objetiva, como sujeito.

O pós-kantismo, ao desenvolver a reflexão sobre o sujeito-objeto temporalizado na cultura, proveu o estatuto positivo do Estado constituído como da "modernidade". Entre Hegel e Riesman, este que produziu o conceito de sujeito "alter-dirigido", vemos que a reflexão foi conduzida por rumos históricos ainda por pensar, na direção de uma crítica da "modernidade" que nem sempre apreende a clareza da distinção pela qual a crítica da modernidade sempre é feita como ela mesma condição da modernidade.

A obscuridade da ideação no esquecimento desse a priori histórico não significa porém que ele não é reintroduzido ao pensar. A modernidade semelha o éter da antiga física. Nas suas malhas todos estamos porém a resistência que implica aos movimentos não é de um tipo que poderia ser superada a fim de desentravá-los, pois não se possibilita pensar a movimentação na exterioridade de um mundo etérico.

Assim o que houve no decorrer de dois séculos foi a constatação de que o paradoxo do nível da pertença não é dominável por um sistema, pois não é a positividade de um laço o que ele impulsiona, mas o deslocamento perpétuo, o espaçamento da alteridade.

A sociologia do conhecimento, de Manheim em diante, é uma estação importante nesse caminho, mostrando que se houve uma unidade da pertença culturalmente apreensível na Idade Média, o mundo feudal como uma espécie de denominador comum de todas as sociedades tradicionais, a unidade se dispersou em esferas de status na modernidade.

O pós-kantismo poderia, à luz dessa reordenação conceitual, ser criticado como apenas transposição formal de uma unidade, a do sujeito da pertença, a um mundo de status desunido. O problema aqui é que a heterogeneidade materializada da presença, conforme a transcendência do sujeito-objeto, em função de modos de pertença diferentes no tempo e no espaço assim como as várias formas de Estado (despótico, oligárquico, parlamentar) e as várias nacionalidades culturalmente discerníveis, não cobre a dispersão do status. Entre Manheim e Riesman, vemos que as consequências se aprofundam, assim como a manifestação delas na própria história efetiva, pois Riesman pronuncia-se sobre o resultado de uma mudança assinalável e não a propósito de uma condição essencializante.

Uma sociologia do conhecimento só é possível se pudermos pensar o sujeito-objeto, isto é, aquele ser auto-constituído que se estabeleceu na transcendência alterizante do sentido, o desenvolvido-apreendido na cultura, sob a forma da pertença, a coalescência privada do "establishment".

Então ele não pode, apenas, ser generalizado como sujeito epistêmico, pois a episteme está agora condicionada sociologicamente, ela é predisposta na condição do status, dispersa na alteridade das esferas da cultura como, exemplarmente, da burguesia e do proletariado. A sociologia do conhecimento tem por tarefa desocultar a parcialidade incógnita nas formas aparentemente universais do significado lógico, como da linguagem.

Mas o status, na evolução da cultura à homogeneização dos mass midia, é solvido ele mesmo em constitutivos universais, como "a saúde, a beleza, a aceitação social, o sucesso sexual" no dizer de Galbraith (citado em Costa Lima, prefácio, organizador da coleção de artigos "Teoria da cultura de massa", Rio de Janeiro, Saga, s.d., p. 51).

Em suma, se o status é solvido "na felicidade", em tais constitutivos reduzida ao efeito dos produtos, há motivos para suspeitar de que esta não se resume, inversamente ao que a análise economicista de Galbraith acreditou, na condição "da posse e do uso de um determinado produto", ainda que os constitutivos universais sejam apenas o veículo da linguagem da propaganda deste produto.

Eles não são universais como conteúdos do desejável, com efeito, do contrário não poderia ter havido uma época em que eles eram, inversamente, o oposto da felicidade ou ao menos quanto a esta, era considerada o oposto do seu distorcido eidolon neste mundo de pecado, como na Idade Média.

Gerações poderiam ter acreditado, por outro lado, que haviam se tornado esses valores universais agora, mas assim como o reaver de uma verdade antes obscurecida, a partir da conjunção da liberação da lei civil com a aquisição do pensamento científico. Eles são valores de um ser material. Ambos, "establishment" e cientificização, duas faces de uma mesma moeda, a do desenvolvimento humano, histórico, ou, inversamente, restando a tarefa de qual o determinado e qual o determinante, entre a produção industrial, a lei civil de sujeitos existencialmente livres e a conquista do pensamento científico.

Porém o que David Riesman descobriu foi que o sujeito do status na contemporaneidade não o constitui por si, como um repertório de significados ou propriedades, independente de serem materiais ou espirituais. Aqui estaremos utilizando o texto publicado como artigo ("O turno da noite"), do "Teoria da cultura de massas", organizado por Luis Costa Lima.

Como Rieman constatou ao examinar exemplares de leitura corrente na sociedade, o status de alguém é construído numa trama de relações com outros sujeitos. Um livro de receitas contemporâneo exibe tipicamente os pratos que o Sr. Fulano individualmente aprecia, e que, digamos, sua esposa está ansiosa por saber como cozinhar com o intuito de agradá-lo. Mas a autora as dirige discursivamente, como livro de receitas, às outras filhas que, assim como a da autora a quem o livro é dedicado, poderão delas desfrutar. As receitas agora, ao contrário do que se pode constatar nos livros de receitas de épocas mais antigas da contemporaneidade, são veículos de algo, mais que a comida que se digere num ato específico, como uma qualidade a ser implicada no hábito do comer.

Aqui não importa tanto a discussão sobre se, conforme Lloyd Warner, a classe social diferenciadora é mais uma questão de status em termos de "quem é sociável com quem e de estilos de conduta", ou, como pensa um senso-comum generalizado na América, "nos termos de uma mais antiga" estrutura social, "baseada na riqueza, ocupação e posição no sentido de coluna social". Porém, além dessas "velhas rubricas", estaria emergindo desde meios do século XX "uma estrutura muito mais amorfa", na qual o preponderante é a liderança da opinião, onde o "intelectual-iletrado-mediano" se torna mais importante do que a tradição da riqueza ou da posição profissional. Não é ser sociável com o vizinho que importa, mas o que pode ser visto como valores comuns a nortear escolhas entre a consumação de bens, os produtos e os serviços, por um lado, e o sentimento subjacente ao hábito. Ninguém é livre nesse domínio.

As pessoas não são senão meios por onde transita a ordem das relações de consumação as quais tipicamente formalizam a abstração das relações de produção, assim como uma interpretação psicanalítica da doença mental a conceitua como "uma total discordância das tendências, uma absoluta desintegração dos dois sistemas", consciente e inconsciente, que juntos articulam a psique (Freud, S. Obras completas, "O inconsciente", São Paulo, Cia das letras, 2010, V. 12).

O sujeito alterodirigido riesmaniano está reduzido ao objeto, por sua vez este está reduzido ao ser simplesmente dado da coisa, o estabelecido não corresponde ao processo constitutivo do sentido como o seria para um ser autodirigido.

O modo pelo qual o ser é simplesmente dado, mas como seu hábito diferenciador, mais que como simples mercadoria incorporada de um poder aquisitivo, correlaciona um efeito de aparência que desloca a essência pela pura materialidade biológica que, ela sim, incorpora a substancialidade do produto.

(revisado até aqui)

Vemos que há um intervalo considerável entre o efeito galbraithiano do produto em termos de saúde, beleza, higiene e bem-estar, e o riesmaniano hábito diferenciador que deve transformar a saúde em performance esportiva, a beleza em espelho da saúde e regra dos aparatos do vestir traduzindo o fato de sentir-se bem, a higiene em decoração de interiores. A felicidade desloca-se do ser desfrutável da coisa ao ser comum do aparecer da coisa no hábito pelo qual se a consome. Nós somos indivíduos numa multidão, the lonely crowd conforme o título de Riesman, porém esta não é a simples soma de todos os que estão aí. Como Freud comparava o estatuto de uma ideia ou impulso inconsciente que não podia passar ao sistema consciente: "Sua procedência é determinante para seu destino. Devemos compará-los aos mestiços das raças humanas, que no geral semelham os brancos, mas denunciam a origem de cor em algum traço notável e por isso são excluídos da sociedade, não desfrutando os privilégios dos brancos".

A exclusão do impulso na fronteira da consciência é um ato de repressão efetuado pelo eu, o reprimido é o que conduz Freud, consequentemente, a postular que nossa psique é composta por algo independente do nosso eu, instintos de natureza sexual que podem conflituar com o que nosso eu julga aceitável conscientizar-se como algo seu.

Ora, o ponto para Freud não é que nosso eu seja injusto. A terapia psicanalítica deve conduzi-lo a contornar a repressão, porque o reprimido retorna na forma do sintoma, como doença, mas de fato os instintos enquanto sexuais não tem a forma da subjetividade que Freud pensa essencialmente a forma da compatibilidade social, inversamente são de fato incompatíveis como desejos homicidas provenientes do ciúme, desejos incestuosos, e demais inclinações sexualmente pervertidas.

O que a terapia psicanalítica faz é suscitar a aceitação do ego, já que houve algo que impediu a superação evolutiva normal daqueles estados inconscientes, acerca de tais impulsos causadores do sintoma, mas somente na forma da lembrança, como conscientização, de modo a votá-los, como deve ser, ao passado, à infância, ao invés do efeito contrário que os torna, como sintomas, dados no presente do adulto.

De nenhum modo se trata de torná-los conscientes como práticas aceitas do adulto. Porém não é contraditório ainda assim que sejam eles a realidade da psique mais básica, mais primitiva, aquela que todo ser humano porta em si na infância: "O conteúdo do Ics [inconsciente] pode ser comparado a uma população aborígine da psique".

O primitivo ou selvagem, os povos aborígines, é portanto o que Freud pensa em homologia explícita aoinfantil ou ao correlato do doente mental como fixado na fase infantil.

Aqui estando claro o preconceito da época freudiana, partilhado por Freud, peloqual os povos não-moderno-ocidentais, não brancos europeus, como os negros, os índios, etc., são psiquicamente atrasados comparados a estes, mas assim eles tinham que corresponder a estados que nestes são os da criança. O critério básico dessa classificação é o intelecto científico alcançado pelo Ocidente, sem questionamento algum acerca da singularidade de um mundo colonialista pós-feudal e o que lhe precede tal que fosse necessário pensar a relação desse progresso com essa mesma ruptura, assim como a Revolução industrial e o Estado constituído como establishment.

Vemos que este se transformou em critério de algo mais importante ainda que a classificação antropológica, o do sócio-político do desenvolvimento. Estamos hoje muito envolvidos com os problemas suscitados pela história do conceito de desenvolvimento, num momento em que a Revolução industrial alcançou os quatro cantos do planeta, mas a noção correlata de civilização transformou-se numa plataforma do pensamento crítico ao invés de como antes apenas a tranquila assunção do triunfo do progresso.

Mas assim, pelo que vimos, Freud transpõedo Eu à sexualidade inconsciente o caráter do que é individual na acepção do que é oposto ao social ou comunizável. Com efeito, para Riesman também a fronteira final da avassalada individualidade, transformada no anonimato da multidão, seria o sexo, onde somente o sujeito sentiria como uma esfera de sua perfeita subjetividade.

Tal como na época passada, onde dominava o preconceito racial, hoje é a própria subjetividade aquilo que porta aquele "traço notável", como a característica que a tornaria insuportável à sociedade, exceto quando se trata do sexo.

Mas assim o sexo é do mesmo modo uma regra do gosto e um modo de sentir prescrito de fora, do mesmo modo que para Freud é uma intensidade instintiva quase-biológica, universal e de modo nenhum o que alguém poderia reconhecer como o sentido de si.

A tradição, antes da sociedade industrial estar plenificada em sua potência máxima, relegava o sexo a um plano desimportante da existência. Entre a simples proscrição puritana e os acanhados limites impostos pelo ativismo político interessado em melhorar as condições objetivas de vida, conforme Riesman, o sexo estava "relegado ao seu tempo e lugar 'apropriado': "a noite, a esposa ou a prostituta, linguagem rude ocasional e devaneios".

As classes superiores, que concediam ao sexo maior importância, anteciparam o papel que hoje ele tem no establishment dos "tipos modernos alterodirigidos". Assim, "mesmo quando estamos conscientemente entediados com o sexo, ainda necessitamos obedecer ao seu estímulo", e se nos entediamos é porque "o sexo passa a saturar as horas do dia, como também a consciência das horas de recreio", como um bem de consumo, porém de um tipo que, ao contrário de todos os outros, não poderia ser veículo da subjugação ao gosto da massa. É então a fronteira última do gosto pessoal, do engajamento possível do sujeito-objeto. E assim como Freud mudou, pela altura dos anos vinte, a sua teoria de modo a desde então reduzir à sexualidade toda forma de interesse egoico possível na existência, sob porém um fundo de compulsão repetitiva de estados ante-constituídos, ante-vitais como único referencial psíquico alternativo ao sexo, Riesman vê que o sujeito alterodirigido canaliza para o sexo toda a sua excitação, pois "recorre a ele como uma reafirmação de que se encontra vivo", de fato uma e única. Mas "a pessoa autodirigida, conduzida pelo seu giroscópio interno e orientada para os problemas mais externos da produção, não necessitava desta prova", encontrava-se em tudo aquilo que fazia.

O alterodirigido não faz fronteira entre esta ou aquela aquisição material, pois todas são mais ou menos equivalentes não obstante o preço maior ou menor, e em todo caso todas estarão superadas no ano que vem, quando novos modelos serão lançados obrigatoriamente, e também não faz fronteira entre a infância e a maturidade, pois desde o início a consumação é sempre assim.

Se o sexo é então a última fronteira, contudo "o sexo hoje em dia leva uma carga psíquica demasiada para que seja realmente divertido para os alterodirigidos".

Se não se pode zombar do sexo como na época dos Contes drolatiques de Balzac, essa enorme importância faz dele um "ascetismo disfarçado" através do qual "ele se torna ao mesmo tempo um negócio por demais ansioso e uma ilusão por demais sagrada". Se o sexo alterodirigido não deixa de comportar uma dimensão de "competição ansiosa", como um ingrediente da ascensão social tal qual fôra sempre nos ambientes tradicionais especialmente como veículo de alcançar status por mulheres num mundo de homens, estes são agora "casos excepcionais", pois "a procura de experiência na fronteira do sexo é, na era alterodirigida, destituída de outros motivos ulteriores".

E de toda essa cuidadosa, brilhante, honesta análise riesmaniana, podemos obter uma fórmula lapidar como a enunciada por Marshal MacLuham. A sociedade contemporânea nos faz compreender que "o meio é a mensagem", inversamente à cultura intelectual do livro, disseminada pela descoberta da impressão tipográfica que disseminou a Galáxia de Gutemberg como condição de possibilidade da revolução industrial, e que dissociava a mensagem do veículo como se fosse autônoma, assim como dissociava a visão dos demais sentidos, fragmentando a totalidade da recepção.

Mas se a sociedade contemporânea é pós-imprensa, e nos faz entender o caráter intrínseco do meio na mensagem, isso não apenas porque a própria mensagem na sociedade contemporânea é veiculada por mass mídias como tecnologias que veiculam mais que uma mensagem de palavras, também, ao mesmo tempo que verbal, sonora e visual ("verbivocovisual"). Muito mais porque "cinema, rádio e televisão" – antes da micro-informática que apenas reitera e reifica a dobra tecnologia-mercado – situam a personalidade num "novo plano de existência", na exemplaridade daquelas personalidades que os meios fazem circular. "Elas existem não tanto em si mesmas, mas como tipos da vida coletiva sentidos e percebidos através de um meio de massa. L'il Abner, Bob Hope, o Pato Donald e Marylin Monroe tornam-se pontos de consciência coletiva e comunicação para uma sociedade inteira". (Op. cit. Teoria da cultura de massa, artigo "visão, som e fúria").

Assim a não-dissociação ora descoberta de meio e mensagem não decorre de, ou como, um progresso que corresponde à ordem evolutiva da sociedade industrial. Ela é, no que tem de efeito manifesto, porém em função do qual se a descobre como universal, uma decorrência indesejável nessa ordem, uma inversão.

Ela restaura a integralidade implicada na primitiva solicitação do sujeito pelo papel social, intregralidade que a evolução civilizadora, tipificada na cultura do livro, havia permitido romper em proveito da independência do sujeito-objeto. Assim, como na entrevista de MacLluham à Enciclopédia Salvat, (vol. 29, "Teoria da Imagem", 1979), implica que o indivíduo não conserva como seu "metas e objetivos", já que todos nós estamos submersos agora num universo de "movimentos informativos que permite incorporar o homem em toda a humanidade".

Ou, numa fórmula ainda mais concisa, a eletricidade é destrutiva da subjetividade, o que implica que a tecnologia "está destruindo completamente o mundo ocidental".

O que vimos estar em estrita concordância com a teoria ocidental que, desde o pós-kantismo de Hegel a Freud e David Riesman, situam o ocidente como a evolução psico-social da subjetividade privada. Justamente o dogma que o pós-modernismo vem questionando, mas para atravessar a oposição de um ocidente unilateral do progresso a um mundo que já não se crê unificável apenas pelo rótulo do não-ocidental como do pré-ego-lógico.

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MacLuham, contudo, mostra-se engajado nas possibilidades de uma teoria construtiva, mais que apenas o balanço de uma destrutividade irremediável. No artigo que citamos, o Visão, Som e Fúria" ( 1954), ele nota: "o que temos de defender hoje não são os valores desenvolvidos em qualquer cultura" definida, "ou por qualquer modo de comunicação. A tecnologia moderna pretende tentar uma transformação total do homem e do seu meio, o que por seu turno exige a inspeção e defesa de todos os valores humanos. E pelo que respeita ao mero auxílio humano, a cidadela desta defesa deve estar localizada na consciência analítica da natureza do processo criador envolvido no conhecimento humano. Pois é nessa cidadela que a ciência e a tecnologia já se estabeleceram, quanto à sua manipulação dos novos meios".

Por um lado, o papel do sexo em Riesman, como fronteira da manutenção da subjetividade, é em MacLuham atribuído às pioneiras produções da própria sociedade industrial, em especial o automóvel, que, conforme ele se expressa na entrevista, projetou-se sobre o ambiente sufocante da antiga cidadezinha interiorana e transformou o antigo modo de vida. Assim também explica o fato dos europeus tolerarem anúncios publicitários no cinema enquanto os americanos o rejeitam. É que sendo os americanos muito mais dependentes dos mass midia do que os cultos europeus, aqueles vão ao cinema "para estar sós".

Isso não implica que MacLuham sustente sobre o sexo opinião diversa de que é em que existe, conforme o entrevistador da Salvat, "uma compensação para a vida multitudinária". Porém ao ver de MacLuham, e conforme sua resposta a esse item na entrevista, "o sexo é uma forma violenta de estabelecer a própria identidade", sendo que "identidade" aqui significa o oposto do uso pelo qual é o sentido coletivo do papel social. Em MacLuham "identidade" é apenas a própria subjetividade enquanto individualidade.

Assim ele é um crítico do sexo como fronteira da individuação, uma vez que "na realidade um mundo que acredita que o sexo é tudo é um mundo sem sexo", e a educação sexual nas escolas significa esse novo ascetismo que é no entanto correlato da difusão da homossexualidade, a seu ver o contrário da sexualidade normal porque implica a perda da identidade. "O homem elétrico tem tendência para se transformar em homossexual devido à perda de identidade. Não sabe se é homem ou mulher porque, integrado numa multidão, não é ninguém". A propósito desse julgamento, minha intenção não é endossar o preconceito, mas questionar se aí se trata de uma definição da homossexualidade ou de um dos motivos que lhe possa ocasionar, entre outros que não seriam necessariamente condenáveis. Como a problemática do sexo e do gênero ancora a elaboração deste meu estudo, à frente espero retornar a esse tópico.

Por outro lado, o trajeto distópico da retribalização a que os meios de massa elétricos conduzem pelo artifício que desconecta o usuário do ambiente circundante e o reconecta exclusivamente ao meio que solicita estruturas físicas para ser decodificado como a imagem eletrônica pelo olho, assim integrando o usuário a essa "tribo" artificial da programação, encontra um limite, um contra-investimento decisivo, uma resistência, porém construtiva, imanente ao ser humano, na arte,

em seu contraste total em relação aos mass mídia. Aqui não há uma defasagem ao popismo e pós-modernismo, pois mesmo Barthes conserva esse contraste, na medida em que a seu ver os meios de massa produzem a redundância da mensagem, enquanto a arte produz bem inversamente o questionamento das pretensões de sentido subjacentes à aparência.

Conforme argutamente constata MacLuham em seu artigo, na construção dos conhecimentos, nós humanos "temos que recriar no meio de nossos sentidos e faculdades internas o drama da existência", e aqui ele recolhe algo da tradição aristotélica mas transformando-a profundamente, pois se afirma que "isso é trabalho do Logos poietikos, o intelecto agente", é pelo meio da linguagem que o intelecto se desenvolve; "na fala produzimos ou poetamos o mundo no sentido em que se possa dizer que o filme papagueia o mundo. Dessa forma, as linguagens constituem as maiores de todas as obras de arte. São os hinos coletivos à existência. Pois no próprio conhecimento reside a totalidade do processo poético".

Assim o artista, inversamente à construção intelectual do conhecimento, não oculta a poetização ou dramatização que nele tem lugar, mas inversamente, "aprende a corporificar os estágios do conhecimento" naquilo que seria a "obra exterior que pode ser oferecida à contemplação".

Aqui vemos que o produzido na arte não é tanto a obra, o conteúdo individualizado correlato à decodificação individualizada, quanto o meio, a linguagem, e esta é sempre coletiva na acepção de ser o próprio meio de sentido sócio-histórico. Mais como o modo da pertença do que aquilo que decorre circunstancialmente do modo.

Porém se assim é, a arte não elide a singularidade em que toda linguagem é engendrada como acontecimento de apropriação, num tempo e lugar, por um sujeito, da pertença e do modo. Aquilo que se manifesta como obra exterior não tem o caráter da generalidade que, inversamente, o conceito pretende obter.

A linguagem na arte, podemos deduzir pelo que MacLuham nos apresenta, é ruptura do mecanicismo do sentido, daquilo que se abate do exterior sobre o sujeito coagindo-o pelo papel social. A contemplação da obra é a recuperação da intimidade de si na própria externalidade do que se mostra ao sujeito que contempla ou experimenta. Assim mesmo que a arte verdadeira tenha que incorporar o meio desse tempo da cultura de massa, ela implica na coletividade da linguagem a ruptura da coletivização.

Joyce, mais que Pound e Elliot mas também estes, são artistas que ao ver de MacLuham já expressam a condutividade "verbivocovisual" dos meios, mas eles o fazem interrompendo o processo da deificação do coletivo, do ser simplesmente dado da multidão, ao contrário de "papagueá-los".

Para uma geração de sociólogos, como os da metade inicial do século XX, poderia parecer chocante a afirmação de MacLuham, de que "o conceito de cidadezinha não impõe a existência de relações cordiais. Nas aldeias as pessoas criticam, espiam, odeiam... É como uma família: não há ambiente mais selvagem que o de uma família".

Pois à época de Freud, a sociologia e um ramo da arte , a "vanguarda", preocupava-se na crítica do caráter massificador da evolução da sociedade industrial, conceituando-a no entanto como o oposto da sociedade tradicional onde havia espaço para relações "pessoais".

Porém hoje se torna mais claro o caráter ambíguo dos textos que construíram o ambiente da sociologia "compreensiva" de Weber, Tönnies e outros críticos da "impessoalidade" objetiva das "sociedades de contrato" ou moderno-ocidentais.

Por um lado, o caráter multitudinário ou massificador não era estritamente o conteúdo do conceito da sociedade de contrato, industrial, da empresa racional, em suma, moderna-ocidental. Teria havido na massificação algo como uma consequência imprevista de atos contudo racionais, conforme a explicação de Merton, o que para Freud e outros foi diagnosticado como uma regressão pré-egológica. Assim desde essa época podemos notar que estava claro que a massificação significava um contraponto à evolução em marcha da própria liberdade como racionalidade institucional.

Por exemplo, em Weber e na geração de críticos que dele decorrem, o caráter estritamente individual, subjetivo (privado), da burocracia racional, seja da empresa capitalista ou do regime democrático-legal, encontra obstáculo na oligarquização, a formação de monopólios empresariais ou de currais formados por protagonismos no interior de partidos políticos.

Mas paralelamente isso apenas testemunha a continuidade de uma linha de ataque à civilização, ou o que a isso aparenta. O que precisamos examinar na decorrência dos intensos protestos e radical rejeição do "ocidente" expressa nos movimentos de inícios da segunda metade do século XX, assim como as manifestações de juventude nos USA e o "maio de 68" francês. Esse ambiente convulsionado, que a Richard Rorty pareceu um retorno ao momento inicial do século XX quando uma onda ativista precedeu a acomodação "funcional" da sociologia universitária a partir dos anos vinte e trinta, foi como ele testemunhou alternado pela esquerda estudiosa dos anos oitenta, que como o pós-estruturalismo exemplificaria, substitui a pragmática por um interesse "metafísico" e suprassensível, restrito aos arcanos obscuros do inconsciente. Mas de fato, após o que eu tenho tratado como um retorno do legalismo devido a se ter ultrapassado a reserva ocidentalista da consciência dos direitos civis, o que temos visto na globalização instaurada nos finais dos anos noventa são formas de participação que extrapolam o ativismo de rua, pois o conjugam a meios de alteração da legalidade que atingem esse que poderíamos designar, parodiando Montesquieu, o novo espírito das leis, o status de cidadania dos sujeitos privados, fundamento da racionalidade contemporânea.

Se bem que, as questões étnicas tem sido axiais

nisso que vimos como ultrapassagem do que eu considero podermos afirmar como a superação do "ocidente" na forma mesma do conceito de uma totalidade trans-histórica de cultura, dos gregos à ciência atômica e sociedade "burguesa", o fato é que a sexualidade e as transformações inerentes a expectativas de gênero sexual tem sido o mais importante elemento do atual estado de coisas.

Não é a toa que Jane Flax considerou "pós-moderno" qualquer enfoque na teoria a que se possa atribuir a noção de "gênero sexual" - não apenas o papel social do sexo biológico, mas a constelação de atribuições pensáveis da diferença "relacional" dos papeis. Para algumas feministas comentando Flax, ela tenciona elidir a diferença, mas a meu ver, bem inversamente, o "relacional" é o fundamento epistemológico da atribuição. O "relacional" ocorre quando só podemos pensar um termo em presença do oposto complementar, como entre masculino e feminino.

Assim ao ver de Flax o pós-moderno supera as formas de pensar que ela atribui ao aufklaerung e Kant, que limitam o correlato pensável a uma identidade ou referência única, não "relacional". Contudo, se é patente que assim, dotando-nos do gênero como de um objeto teórico definido, se espera apenas bem instaurar a complexidade das problemáticas do gênero, ao invés do "relacional" ser proposto como a solução para todas que possam surgir, o interesse está no deslocamento da ação para o pensamento, do compromisso com ideais de gênero à epistemologia como o questionamento sobre como estamos pensando sobre o gênero. Não significa condenar a ação e a proposta, mas tornar a teoria independente delas, por não ser mais o seu problema definir o dever-ser. Como vemos esse é mais um meio de mostrarmos como o retorno da legalidade como cisão público-privado é a vertente singular do pós-modernismo, inversamenente à opinião das fileiras feministas que julgam a cisão mesma um artifício da sociedade dos homens como oposiçaõ de razão e sentimento que fundaria modernamente o papel da mulher no lar em vez de no ambiente público das decisões políticas. A meu ver aí há uma contradição interessante porque ao mesmo tempo o que se exige é considerar que o lar feminino é tão permeado pelo poder e pelo político quanto o ambiente do trabalho masculino.

Ou seja, como há muito a redução do feminismo à questão do mercado de trabalho está superada pelo interesse nas experiências exclusivas das mulheres e especialmente a libido, e assim entendemos o foco no lar, a persistência na recusa da cisão público e privado apenas ecoa uma crítica de classe que não é genuinamente feminista nesse sentido mais atual. Mas se paralelamente se mostra melhor a opção legalista, mais coerentemente assumindo-se centrada na privacidade, do que decorre em nível público não tanto aparatosas afirmações de identidade coletiva ou dever-ser, e sim exigências bem fundadas de leis e cumprimento de justiça quanto a questões femininas, isto é, relacionáveis aquelas pessoas que na sociedade são atribuídas como mulheres, ela apenas antecede a proliferação do gênero que vem ocorrendo mais recentemente nos termos assim designados lgbt.

A ambiência conflitiva dessa proliferação do gênero em relação ao feminismo, e a recusa de muitos ao lgbt como ao que não se coloca já como apenas o objetivo da liberdade comportamental do gênero alternativo ao binarismo masculino-feminino, mas retroage à demanda da identidade coletiva, decorre num contexto de radicalização que vem se revelando traumático - como nas exigências de reforma da linguagem, promiscuidade nos banheiros públicos e atribuição de feminilidade a homens "trans" que assim passam a competir com mulheres no terreno físico onde porém eles continuam diferentes delas quanto à força muscular.

É uma ironia que, se podemos criticar a concepção "queer" de Judith Butler, porque os próprios assim designados homossexuais não necessariamente se consideram "maricas", ao menos na conotação desse termo que significa "covarde" veríamos uma atribuição adequada a quem assim atua como o desportista trans que se permite competir em luta livre com mulheres ginastas. Quanto a essa recusa da atribuição de "maricas", ver o "Diário de um Ladrão", de Jean Genet, que não é uma apologia do crime mas uma reconstituição autobriográfica intensamente poética do estado miserável dos moradores de rua, entre os quais as relações homossexuais são ao mesmo tempo que substitutivas dos laços do parentesco ausente, meios do ganha pão. Mas poderíamos colocar também o exemplo da Grécia antiga, onde o homossexualismo masculino era uma regra aristocrática de classe, para uma extratificação social que unia indissociavelmente prestígio de status e virilidade. Ou seja, onde o homossexualismo era um comportamento masculino como um meio de evitar a mistura com esse gênero de ser menos privilegiados na inteligência e na força que se atribuía as mulheres.

Assim vemos também como a confusão do gênero com o sexo está imbricada a recusa da cisão público-privado, na medida em que a carteira de identidade, documento de identificação civil, sendo feita para que outros possam atribuir a invariável do sexo biológico, meio pelo qual se pode verificar a legalidade do porte do documento civil, tem sido produzida como opção íntima de gênero, o que não comporta necessariamente função alguma de verificação pública.

Nossa questão "epistemológica" do gênero poderia se revelar bem útil aqui, como um modo de retomarmos aos objetivos da emancipação subjetiva que as questões do gênero apenas poderiam visar ampliar caso pretendessem ter qualquer pertinência ou não se confundirem com retrocessos autoritários flagrantes. Nesse sentido o que me parece necessário agora é ligar a exigência epistemológica quanto ao gênero, à questão do inconsciente, que não se esgota no pós-estruturalismo, e inversamente a Rorty não se limita a um antagonismo da prática por isso que nem por ser teoria deixa de estar ligada ao horizonte da crítica do discurso a partir da semiótica, e particularmente da natureza infixada do significante, que vem deslocando a noção grosseira e demasiado geral de prática ou ação naquilo que se relaciona a problemáticas antes tratadas como ideológicas.

Mas introduzir a problemática do gênero na perquirição do Inconsciente exigiria, se não reduzir o gênero ao sexo, preservar a realidade do sexo masculino e feminino já pelo viés do psíquico naquilo em que não pode este deixar de integrar a relação do sujeito ao real. Sem nos comprometer aqui com as complexidades da noção de real, podemos nos contentar com o nexo da mentalidade contemporânea e referencial científico que nesse caso é regido pela genética.

Recusar a genética do sexo masculino e feminino, independente das escolhas do gênero que possam circular como desejos na cultura, a genética enquanto realidade epistêmica, é uma propriedade de recusa do real inerente a uma psique qualificável no rol das psicoses. Mas o que temos visto como a coletivização de interesses convergentes com o domínio sobre a legislação no sentido de suprimir a atribuição genética do sexo torna problemática a qualificação. Em todo caso resta aí, relacionável às decisões políticas entre os objetivos de preservar ou não a atribuição do sexo independente do gênero, a tarefa teórica de interpretação do desejo.

Pelo que vimos acima não seria forçado julgar que a vontade de reduzir o sexo ao gênero reflete a redução da complexidade à aparência vendável como produto midiático nos termos da dominação restrita à fabricação de consenso social. O efeito da incerteza quanto ao sexo parece não ser uma decorrência fortuita, mas induzida, dos aparelhos de comunicação de massa, que visam assim uma homogeneidade alterodirigível mais que alterodirigida, ali onde a sociedade por si mesma expressaria, ao invés, o heterogêneo e o múltiplo como decorrência da emancipação do privado na legalidade civil. ... texto em elaboração ... 

    

2 ) Três Esquemas de Contos Infantis   

a)

A proposição de que os três contos infantis mais conhecidos, em torno de figuras femininas, podem estar estruturando esquemas de gênero não é de modo algum algo novo. Nem sua leitura psicanalítica, onde o que se focaliza é a inter-conexão gênero-identidade, de modo que se desloca o antigo aporte metafísico intelectualista para estabelecer axialmente a interdependência da sexualidade e do pensável como racionalidade.

Na pós-modernidade a crítica à psicanálise não tem sido procedida no sentido de um retrocesso intelectualista. Inversamente, se bem que isso possa não ter sido já referenciado, parece-me que o mais conspícuo nesse contexto são formas de questionamento do nexo do pensamento como racionalidade tal como esta pode ser definida na tradição filosófica, justamente como postulação do idêntico ou o que se designa "objetividade" - as fórmulas aristotélicas do princípio a=a, da não contradição, etc. - por onde a interdependência do pensável à sexualidade deveria sustentar esse questionamento, não o inverso que corresponde à démarche psicanalítica que vai do múltiplo à universalidade.

Quanto a esse desenvolvimento psicanalítico, é notório estar relacionado à transformação moderna do pensamento ocidental, por onde o princípio de identidade, para ser conservado, cortou o da não-contradição por meio da dialética hegeliana. No entanto, o que as conceituações do desejo pós-psicanalíticas, como a esquizo-análise e a gramatologia, que tiveram seu predecessor na psicologia humanista de Jasper a Laing e Bateson, estavam conceituando, eram registros não-ocidentais ou tratando aquilo que para o ocidente era anormalidade, por um foco que deveria ignorar tal premissa para escutar ou rearticular o fenômeno na sua positividade.

Quanto ao não-ocidental do material dado a pensar, não se tratava agora apenas de um material etnográfico cuja extensão permitisse ainda manter as versões funcionalistas que sempre supõe redutível a uma universalidade do significado, os conteúdos da alteridade da cultura. Não só esse material estava já excedendo o limiar desse visível delimitado, como o mercado cultural estava sendo povoado pelas margens – por aí, o papel histórico da literatura americano-latina, com seu assim chamado "realismo mágico", dos orientalismos, e inclusive do Pop, que encontrou a alteridade no interior do ocidente apenas mudando o foco da cultura oficial para a popular.

Ora, o que tudo isso mantém em comum recorrentemente – em termos do que poderíamos designar "não-ocidental" apenas como um recurso convencionado para enfeixar o que não se mostra adequado nem à tradição metafísica, nem à sua adaptação dialética ao menos nas formas mais padronizadas de sua interpretação, assim questionando a própria viabilidade do conceito de algo como "ocidente" – é o fato de que as assim chamadas categorias do entendimento que se resumem na postulação da identidade como somente o que é pensável e dessa postulação formulam a significação da causalidade, das atribuições de estado, etc., isto é, que instituem o pensamento como referência a uma unidade, não permitem descrever o que ocorre. Não obstante, há coerência e sentido nessas experiências que também não deixam de liberar suas próprias categorias, para uma instrumentação teórica que não vá se comprometer de início com pressupostos universais inviáveis a esses fenômenos. Que isso invada a leitura da história do pensamento ocidental, é o que mais se torna provocativo contra argumentos que supõem acomodar todo esse "pós" na anterioridade assim posicionada tradicional, se puder ser demonstrado que os parâmetros identitários que vieram a se estabilizar pretensamente como o enunciável dessa tradição, na realidade não traduziram senão opções comprometidas entre outros processos não-identitários do conceito.

Mas, sempre que os horizontes pós-modernos ou ao menos pós-psicanalíticos da problematização do desejo se delinearam, eles precisaram também explicar a deriva do pensamento "ocidental", o por que de haver essa fixação identitária, não tanto no cerne do que ela pensa – já que seu comprometimento político ou investimento de interesse é muitas vezes óbvio – mas na face historicamente dominante da sua instituição. A psicanálise se tornou um limiar cujo ultrapassamento é complicado precisamente por que ao explicar o desejo, nomeou a vocação identitária como sua ilusão fundamental, de modo que compreendemos a hipótese ocidente como natural, não apenas resultado de uma imposição violenta, ainda que a liberação do desejo esteja ao mesmo tempo sendo conceituada como a real "normalidade", o que, não obstante, parece-me o ponto frágil da teoria psicanalítica – ela não pode evitar assim ser um evolucionismo, se transposta do gabinete do analista para o que fundamentalmente é, uma leitura da sociedade e da história.

No entanto, quando se fala em pós-psicanálise, o que se está designando não é apenas que o material sobre que se conceitua agora são amostragens da realização da hipótese não-ocidental do mesmo inconsciente, que seria o dessa ilusão fundamental. Mas, sim que aquilo que essa ilusão cauciona, o nexo do pensável com o uno-identitário, não se demonstra o produzido nos registros do "não-ocidental". Se o ocidente parece agora o enigma, o que se conceitua no lugar resta não menos enigmático – haveria efetivamente "outro" inconsciente, recursivamente aquele em que o Outro não se designa o oposto/negativo do Mesmo?

O desenvolvimento pós-psicanalítico ganharia muito, a meu ver, tematizando as produções do pensamento filosófico para mostrar, se não se resumem ao que se lhe atribui fundamental como conceito identitário-metafísico, o que pode haver de positividade no pensamento do devir que não se deixa recapturar pelo foco da tradição. Isso tem sido efetivamente investido, mas é preciso notar que historicamente essa vertente apenas começou a ser demonstrada necessária nesse ambiente pós-moderno, contra milênios de limitação do necessário à forma da identidade.

Aqui, não obstante, o que tematizamos é o nexo dessa forma naquilo em que expressa um desejo – seus focos de enunciação – e nisso os contos infantis parecem extremamente oportunos por serem aparentemente modelares da inteligibilidade ocidental, por onde a partição dos gêneros e o que seria sua preensão psicanalítica. A questão importante seria assim colocada: será que, uma vez que encontrássemos a esquematização profunda desses contos, poderíamos contrastá-los aos registros não-ocidentais para nestes localizarmos algo irredutível a essa esquematização? Mas assim colocada a questão seria preciso salientar que o seu escopo é irredutível a uma hipótese tal que a resposta alternativa fosse a universalidade do ocidente – o que, ao menos, pelo modo como colocamos a questão resulta claramente um paralogismo. Sendo esse paralogismo, a confusão do universal e do particular como a fórmula ambígua de algo como "ocidente', o que a pós-modernidade tem posicionado como o questionável em si mesmo.

b) -

A castração é como o conceito dialético: aparentemente é onde tudo culmina, mas na verdade isso só é assim por que desde o início trata-se da natureza do idêntico não posta senão pela sua posição na alteridade. O esquema que fundamenta o desejo e o pensável está, portanto, como a castração, entre a negatividade que impulsiona todo o processo no devir, e a afirmação que é o que percorre o processo sendo a natureza do impulso. A afirmação é uma negação da negação; mas a negação só existe posta frente à afirmação e relativamente a esta que não tem a natureza de coisa sempre dada na indiferença do objeto, sendo desejo recorrente do vivo, impulso jamais saciável posto que sempre reinstalado; ou, como desenvolvimento no tempo, o processo é o relatável do que se põe, do obstáculo a isso que se põe, da superação do obstáculo, do novo por do que se põe, etc.

Por essas considerações, vemos como deve ser feliz o encontro de estruturalismo e psicanálise. Onde ela precisou contornar laboriosamente a oralidade para reconstituir narrativamente a formação dos esquemas identitários – a encenação do signo pelo variado sofrer das oposições até a apoteótica afirmação pelo que se realiza a equivalência Signo/signo (significante/significado), que subentende todo o drama da finitude do sujeito – o estruturalismo resume o procedimento pelo mais seco formalismo, ao mesmo tempo realizando na História o que seria a maturação de uma sociedade apta a reverter sua própria neurose constitutiva, e constitutiva de toda sociedade.

Os três contos infantis mais populares que se estruturam em torno de figuras femininas – "chapeuzinho vermelho", "cinderela" e "branca de neve" – mantém em comum o fato de serem redutíveis à esquematização das oposições fundamentais ao inconsciente psicanalítico. O seu maniqueísmo, pelo que trata-se facilmente do antagonismo entre o bem e o mal, todos personificados e claramente opostos, não havendo ambiguidade quanto à natureza dos papéis, permite, a meu ver, tratá-los como um gênero especificado. Não seria, por exemplo, o caso de Alice, onde há essa ambiguidade, os personagens, aliás, sendo fundamentalmente ambíguos, jamais podendo ser identificados pela menina como de todo racionais ou bons, sem que sejam totalmente perniciosos ou maus, isto é, sem que causem diretamente prejuízos a outrem, como o lobo, a madrasta ou a bruxa.

Nesse caso de Alice, encena-se a estória num mundo aproximado àquele em que se processam os acontecimentos do mito tratado como não-ocidental, um outro tempo para o qual às vezes até se possui um nome especial que designa também o mundo dos sonhos. Que as características dos personagens estejam também descompromissadas do que seria uma recomposição convincente da concretude da sua atuação, compreende-se já instaurado na operação de deslocamento que inere à estruturação narrativa. Por aí, até poderíamos questionar tratar-se o mito como "narrativa" - se para esse termo designarmos o exemplificado por Kermode, o tic tac do relógio, entre os dois sons uma expectativa de sua ligação sendo instalada por nós enquanto receptores, ou seja, uma estrutura de Repetição como na conceituação de Deleuze, que inere à nossa constituição temporalizante. O mito não-ocidental, como a história de Alice, inversamente, constrói uma série de rupturas desde o que está sendo aparentemente "contado", pelo insólito do poder ou do fazer dos personagens desse outro tempo destacado da linearidade ou não instaurador de Repetição, senão enquanto a propagação da sua estranheza, o deslocamento sendo fundador, em vez do paralelismo dos motivos que se encadeiam.

Os contos infantis, aproximáveis a histórias de fadas como Cinderela - mas não necessariamente, como nos outros dois exemplos - estão instalados, inversamente, no mais crônico dos tempos – aquele, totalmente linearizado, que não obstante foi instaurado por uma transgressão primeira, a qual trata-se de reverter. Aqui a terminologia da "Lógica do Sentido", que identifica o presente com Cronos de acordo com as versões estóicas, se presta a um duplo-senso, pois o crônico é também termo que designa uma paixão ou uma patologia de que se sofre : como no francês /patir/ oposto de /agir/.

Eles são assim bem designáveis como narrativas, a linearização sendo seu constituinte desde a macroestrutura à microestrutura, e desde o plano cotextual ao figurativo. Uma vez que a linearização é a constante, os elementos opositivos estão dados em séries que habilitam transpor para esse plano esquemático-semiótico o que ocorre em nível de estória. A estrutura profunda desencadeia a oposição fundamental feminino-masculino equivalente que encena o percurso da negatividade à afirmação que corresponde à realização da presença do masculino.

Mas o que varia entre as histórias é a natureza do que se mostra sintomático, isto é, o que é crônico ou encenado como paixão inconsciente, o que causa os acontecimentos da estória: o défict ou negação estrutural do plano feminino, que tem que conseguir ser revertido até a afirmação que é a conversão da centralidade na figura masculina, caçador ou príncipe. Isso ao mesmo tempo restitui a polaridade dos dois papeis, enquanto a negatividade é sintoma em termos da unicidade da figura feminina, que assim está duplamente investida como falta, desde que na polaridade esse lugar é do passivo em relação à libido que é da natureza do ativo. O personagem central (feminino) nesse gênero literário jamais age, somente sofre os acontecimentos ou é objeto da ação alheia ( má ou boa, conforme os personagens que lhe prejudicam ou auxiliam) e só realiza seu feito heróico cedendo a centralidade ao ativo (masculino).

A natureza do sintomático se torna então o que permite desenvolver a estória/paixão, como variável do que pode ocorrer em termos da transgressão fundamental que é o que instala a unicidade – a feminilidade pensável , posição fálica da mãe ou desejo, que não pode ser senão fonte de sofrimento ainda que ao mesmo tempo a instauração transgressora que desencadeia um desejo – do ser salvo, ou da ação, isto é, do masculino que desloca o que ameaça realmente a unicidade, o despedaçamento, pela dualidade saudável comandada pelo ativo onde o passivo resta como Khôra, lugar e impensável.

O gênero pode então ser esquematizado pelos momentos estruturalmente posicionados:I) instauração do sintoma e cena da paixão; II) encenação da reversão do sofrimento na paixão; III) instauração do ativo que nomeia a cura/oposto do sintoma. Essa instauração é invariavelmente o feito de expressar a equivalência estrita das séries opostas, sendo a transgressão uma distorção tal que elas pareciam contraditórias.

O que o esquema realiza, enquanto encenado por figuras femininas, é a natureza ativa/masculina (pai) do desejo, mas a assunção pela qual a verdade do desejo somente é desempenhada pelo impensável/passivo ou feminino (mãe). O gênero esquematiza o movimento da negatividade (feminino/castração) à positividade (masculino/libido), mas como trânsito permitido (contornando a censura/transgressão) do plano da lei/forma/simbólico/intelecto/ (pai) ao da efetividade/imaginação, atuação, afetividade (mãe).

A superação da censura, ou da transgressão, deve inverter a postulação de fato da natureza e da verdade, posto que a verdade do desejo (mãe) é o que deve transitar para o simbólico desde sua posição originariamente formada no imaginário, convertendo-se no saber da natureza do desejo; enquanto que a natureza do desejo é o que deve transitar para a verdade enquanto correlato real do enunciável. O trânsito das polaridades instaura no que não há no meio deles, um haver/ser que é o sujeito (identidade), se a superação é efetivada, e o que se contorna é a fragmentação/anulação desse efeito-sujeito que resulta da posição ideal dos termos simétricos.

1) Chapeuzinho Vermelho e o Excesso Feminino

A instauração macroestrutural, o equivalente da feminilidade, é o tropo inconsciente do excesso, só havendo inicialmente personagens femininas. Os doces que devem ser presenteados pela neta figuram o excesso, nomeando a natureza do que eles simbolizam por inversão, a falta (fome/ausência = feminilidade). A transgressão (ir pela floresta) enuncia a qualificação situante do excesso (mal).

Estando o tropo atuando por inversão, o oposto da feminilidade surge inicialmente como recirculação do excesso – o lobo (mau). Na encenação da paixão chega-se ao clímax do procedimento – diálogo de chapeuzinho e o lobo, onde o excesso é figurado pelo "grande" dos seus detalhes anatômicos em relação ao esperável no lugar ocupado que seria o da avó.

O excesso do feminino se torna ameaçado pelo masculino na possibilidade dele ser igualmente excessivo – paixão que instaurava o sintoma como temor de só haver a natureza do feminino (castração).

Ora, quando o excesso é nomeado/localizado na boca – que ressoa a figura dos doces – ele é como que posto frente à frente com o seu oposto, a falta/fome/castração que é o que está desde o início invertida no procedimento sintomático.

Essa equivalência só pode ter sido feita pelo poder – o caçador que já entrou no armário – e desencadeia o momento da realização do elemento masculino. O caçador irrompe do armário, a avó sai da barriga do lobo.

A cura é o que efetivamente ocorre, o plano dos fatos sendo invertido pelo plano da expressão, mas essa inversão agora funcionando não como a contradição, e sim como a barra de articulação entre os planos: o caçador entra na cena e a menina pode agora estar situada por relação ao caçador-ativo como Khôra-passiva, reconquistando assim porém a sua própria esfera de atuação.

A equivalência restaurada se nomeia da exteriorização como mau (floresta) à exteriorização como bem (barriga do lobo), o operante imaginário da equivalência transcendental sendo o caçador.

2) Cinderela e a ausência móvel

A instauração do sintoma é feita pelo tropo do ocultamento – cinderela ou na variante da gata borralheira, em todo caso se torna recalcada (cozinha/borralho) pelas filhas da madrasta que ocupam o lugar destinado pela narrativa à visualidade social (casa/sala). O tropo está atuando metaforicamente, o ocultamento da cinderela equivale ao excesso feminino (a madrasta mais suas três filhas = ausência do pai, sem referência da khôra ou mãe).

A hiância da posição da mãe, simétrica ao sublinhado da presença da madrasta, é compensada pela fada : há presença de objeto, a carruagem, e o deslocamento do procedimento: a ocultação se torna mobilidade (cinderela ausente na cozinha – ausente da cozinha – presente no baile). O deslocamento pela mobilidade é encenado como re-ocultação (fuga à meia-noite). E re-encenado pela substituição do objeto, em vez da carruagem mover-se, agora é o sapatinho que circula pelas casas à procura da dona. A dúvida fálica relacionada à dona do sapatinho desloca a pressuposição anal autoritária da madrasta e das filhas sobre Cinderela. Mas, do mesmo modo, o que se move é a castração (falta/feminilidade/ocultável).

Há então preenchimento do lugar hiante, quando Cinderela prova o sapatinho de cristal, deslocando a centralidade da personagem por sua localização como complementar ao príncipe – atividade que desencadeia a substituição do objeto, latência/destinação na presença da carruagem/fada que restitui a natureza polar do ativo (pai) como complementado pelo passivo (mãe que deveria haver), a possibilidade transgressiva (mal) sendo nesse caso o excesso feminino poder equivaler à anulação da Khôra pela unicidade do ativo (ordem/ação da madrasta), isto é, a possibilidade de poder haver ação da madrasta, figurada como ordem do ocultamento de Cinderela quando se trata da prova do sapatocastração fragmentadora do sujeito.

A natureza do ativo que cura o sintoma é então a ordem do príncipe que desencadeia a mobilidade do objeto (sapato). A equivalência restaurada se nomeia do apequenamento do status social à pequenez dos pés da cinderela.

Há um intermediário que parece ser a submissão da cinderela à ordem da madrasta ( figurando a passividade saudável a que o desejo feminino deve se destinar) como simétrico da aparição da fada (compensação assim permitida da ausência/sobredeterminação do pai-ordem da madrasta) que restaura o masculino na transitividade do pai (ausência/ Cinderela ocultada) ao príncipe (presença/Cinderela encontrada).

3) Branca de Neve e a Neutralidade do Sono

Aqui o tropo da instauração do sintoma é já o espelhamento das séries ativo-passivo elas mesmas, mas sob a forma da oposição do uno e do múltiplo que reúnem a sucessividade das figuras em um ou outro status antepostos respectivamente como masculino/bom/príncipe (identidade do sujeito, pressuposição recíproca do par) e feminino/mau/bruxa-madrasta (fragmentação/anulação do sujeito, castração).

O funcionamento do tropo é também deslocamento metafórico, pelo que Branca de Neve se põe no lugar do uno por sua relação aos anões que ocupam assim o lugar do múltiplo. A bruxa, que era a madrasta (personagem múltiplo que abrange ainda, pela ordem, o caçador de quem branca de neve deve fugir), re-atua o sintoma, retornando nesse disfarce de bruxa, no qual figura a posse do uno (a maçã).

Mas o sono desencadeado pela maçã funciona como o mecanismo reversivo da transgressão do uno pelo múltiplo, posto que neutraliza o mal da oposição ao não poder figurar qualquer múltiplo como simétrico desse pseudo-uno, re-atuando o nada objetivado como castração.

O falso-uno se desloca então, pela sobreposição do nada ao nada, substituído pelo verdadeiro/uno também objetivado (o beijo do príncipe), que realiza o ativo/masculino da libido enquanto polaridade príncipe-branca de neve (que acorda, compensando a impossibilidade da simetria ao uno-maçã pela ação do acordar que a instaura, contudo, somente no simbólico-passivo ou Khôra).

O sintoma encena a possibilidade da oposição ativo/passivo ser falsa por não haver unidade possível senão como anulação/fragmentação do passivo pelo ativo. Como nesse caso a equivalência não foi instaurada por qualquer figura do excesso, senão pelas séries antepostas, o que deve corresponder à cura é a conversão da divergência das séries em convergência das séries, e só por esse meio não-direto se pode nomear a equivalência como neutralização cruzada. A divergência das séries era a neutralização da positividade da oposição ativo/passivo; a convergência das séries opera a neutralização da possibilidade da negatividade dessa oposição, o que autoriza plenificar a libido como ativo/masculino que subentende, ainda que como impensável, o seu lugar (Khôra ou passivo/feminino).

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