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autoria de
Eliane
Marques Colchete de Morais, escritora e pesquisadora independente em
ciências humanas e filosofia, autora dos livros "O Pós-Moderno, Poder,
linguagem e História", "Riqueza e Poder, a Geoegologia", Filosofia,
Ceticismo, Religião, com um estudo sobre Diógenes Laércio", "Contos da
Musa Irada", "Contos do Espelho", blogs na internet e títulos em parceria com Luis
Carlos de Morais Junior, como "Laboratório de Letras", "Formação da
Filosofia Contemporânea" e vários títulos, mais informações em
https://www.facebook.com/lui.morais/
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NENHUMA AUTORIZAÇÃO ME FOI PEDIDA OU POR MIM CONCEDIDA PARA INTERVENÇÃO NA MINHA PRODUÇÃO ESCRITA OU NO MEU COMPUTADOR OU PARA REPRESENTAÇÃO DA MINHA PESSOA OU MINHA PUBLICAÇÃO. QUALQUER AÇÃO SIMILAR DEVE SER CONSIDERADA CRIME SUJEITO A PENALIDADE CABÍVEL CONFORME ARTIGO 154 DA CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA CONTRA HAKERISMO E ARTIGO 146 – A CONTRA INVASÃO DE PRIVACIDADE;
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Este blog contem
1) O meio e a mensagem
2) Três esquemas de contos infantis
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O Meio e a Mensagem :
sexo e sujeito na sociedade midiática
Eliane Colchete / texto em elaboração desde maio 2023
Introdução
O
texto que estou apresentando aqui é um esboço, elaborado em algum
período entre 2012 e 2015, que até agora nunca tinha sido publicado. O
texto publicado aqui está sendo revisado e acrescentado em 2023. Nesse
intervalo de anos, voltei algumas vezes ao arquivo original e
acrescentei vários trechos que evidentemente salvei em pen drive, mas
como ocorre com frequência até pen drives se encontram alterados não
sendo possível localizar o que foi salvo, com a peculiaridade da
alteração atingir trechos acrescentados, e até mesmo - pasme-se - se
constatar repetição de trechos que haviam sido descartados. Isso sem
falar na veleidade dos cínicos, pelo que palavras são alteradas, etc.
Nessas
deploráveis condições do pensamento contemporâneo, de ditadura de
mercado de aparelhos computacionais intrusáveis sem opção à escrita
privada, não havendo com que contar com a polícia que se nega a
investigar a identidade da intrusão computacional, é preciso agora
acrescentar a consciência de estarmos ameaçados por uma ditadura mundial
hitlerista neonazista cuja articulação é a mesma dominação de mercado
transnacional do capital imperialista de mentalidade
paranoico-persecutória homicida, cujo sadismo é o mesmo das dominações
arcaicas, cujo ódio aos direitos do ego privado e a mera existência da
individualidade é patente, porque desafia o narcisismo dos que se
pretendem papeis integrados de alguma totalidade mítica despótica.
Os
USA e a Otan são responsáveis pela presente ameaça ao mundo por parte
do golpe de Estado explicitamente neonazista, como na Ucrania atual que a
Russia de Wladimir Putin está contestando na defesa bélica da etnia
russa na região do Donbass, que como várias etnias e grupos sociais
foram atacadas pelo regime insano. Mas assim como nas atuais
intervenções estapafúrdias dos USA-Otan no conflito separatista
estritamente situado do leste europeu, para apoiar um regime hitlerista
de atrocidades condenado há muito pelos próprios USA na Segunda Guerra,
desde há várias décadas também são os USA responsáveis por golpes nas
regiões do terceiro mundo, para impor o monopólio dos carteis
multinacionais norte-americanos, europeus e japoneses, golpes que
tiveram as mesmas práticas mas se isentam da ostentação hitlerista que
Putin está combatendo.
O
que está ficando assim evidente na globalização é que nazismo e
colonialismo são o mesmo. Atrocidades genocidas, propaganda de terror
psicológico, escravização, inferiorização, todo tipo de prática aversiva
aos direitos humanos que a propaganda do progresso impedia até agora de
tornar factualmente associada ao patrocínio e organização de
instituições públicas do capital multinacional e dos governos de Estado
assim designados "desenvolvidos". Mas mesmo sem o nexo definido da
barbárie com o imperialismo - definição pela qual não há poder de
corrupção de classe em nível de economias nacionais, somente à escala da
dominação geopolítica imperialista - há muito que a corrupção contra a
democracia está tematizada não apenas pela informação da história
efetiva, mas em nível de expressões conceituais e/ou estéticas em temas
visando as mentalidades e as estruturas subjacentes às práticas de
propaganda e demais formas de reprodução da dominação.
Na
guerra que, como na Russia de Putin, se impõe contra o extermínio da
humanidade por grupos de patologia psicossocial hitlerista associados ao
capitalismo já info-midiático, a informação e a resistência do
pensamento ao avassalamento tecnocrático obscurantista formam um dos
componentes mais importantes. Basta ver que até agora a consciência de
que os USA e grupos neonazistas europeus estão apoiando um regime
explicitado hitlerista se reserva a poucos, com uma indústria de fake
news e distorções silenciando sobre o fato principal no conflito
separatista atual do Leste europeu.
Quando
se tornar de conhecimento público efetivo a natureza do regime que os
USA e governos europeus antagonizados pelos próprios cidadãos que já
sabem a verdade estão apoiando, não temos dúvida de que as populações e
governos que não querem ser genocidados irão se opor firmemente aos
USA-Otan e apoiar a Russia. Os conflitos separatistas na Europa recente
tiveram êxito na estruturação de regiões independentes como as oriundas
da guerra da Bósnia e as repúblicas tcheca e eslováquia, e assim é o que
se espera ver também a libertação do Donbass russo. Mas nesse caso a
intervenção imperialista está sendo notória como o opróbio do novo
século, além de que escandalosamente a agressão ucraniana a etnias é de
teor explicitado hitlerista.
O
texto que estou publicando agora se endereça à temática da dominação
propagandística que visa a redução da personalidade a autômato do
consumo numa sociedade de valores impostos e contrários à autonomia da
personalidade, bem inversamente à legalidade assim como em Piaget, o
âmbito da reciprocidade e da legislação de responsabilidade unicamente
dos sujeitos mesmos a que ela se aplica. Essa redução foi tematizada por
vários autores em torno dos anos cinquenta, desde o conceito
adorno-horkheimeriano de "pseudomercado", uma economia empresarial
movida a propaganda e diversão, apresentado em "A Dialética do
Esclarecimento, fragmentos filosóficos" à crítica de Marcuse,
especialmente em Eros e Civilização, ao que ele conceituou como redução
dos comportamentos ao critério do desempenho imposto por algo como um
"establishment" que desloca o conceito liberal de sociedade
constitucional. Nessa trajetória do pensamento que não é apenas crítico,
produzindo na verdade categorias sociológicas pertinentes e assim aptas
a munir políticas saneadoras consequentes, aqui estaremos acrescentando
as impressões de vários autores, focalizando porém as reflexões de
Marshal McLuhan e David Riesman. Estes dois referenciais mostram
especificamente como o sexo foi canalizado para se acomodar a um
comportamento ao mesmo tempo massificado e ligado ao consumismo
mercadológico como "novo" análogo da subjetividade.
Baudrillard
é um ápice na trajetória dessas formas de análise do comportamento na
sociedade de consumo, não só pelo conceito de mercadoria como "sistema
secundário de objetos", quando já não se trata apenas de fabricar
produtos considerados necessários, no que seria um sistema primário, mas
da estetização fabril do produto relacionada ao discurso das qualidades
estéticas como veículo da propaganda. Não só pela análise desse
discurso, mas também pelo foco no deslocamento da subjetividade pela
estetização mecadológica, já não como na definição marxista do
fetichismo da mercadoria, pelo que as relações entre os homens são
moduladas como relação entre coisas, mas pela redução anuladora do
sujeito pela qualificação propagandística dos objetos. Enquanto Adorno e
Horkheimer refutaram a pretensão positivista-cientificista de ser
suficiente para a evolução psicossocial, uma vez que o autoritarismo
decorrente dessa posição resulta numa manipulação do sujeito, o que
precisamente solapa a autonomia subjetiva e portanto define uma
regressão narcísica, Baudrillard mostrou como o discurso estetizante do
objeto na propaganda atua de modo específico a evitação da consequência
como processo psíquico que vai dos significantes puros, os traços
constitutivos da coisa, a uma sintaxe produtora de significação do objeto.
Entre a coisa e o objeto podemos pois demarcar toda a distância que
Baudrillard mede entre a limitação do discurso estetizante
propagandístico-mercadológico a justaposição de sinais, uma
quase-linguagem ou código, e uma verdadeira linguagem que comporta
relações efetivamente pensáveis, conceituáveis. Dessa limitação
resultando a regressão anal como mania decompositora do objeto,
degradação que o filme de Godard, "O Desprezo", exemplificaria na fala
inicial da personagem de Brigitte Bardot, decompondo o corpo feminino
nas partes consideradas sedutoras.
Toda
a trajetória que estamos examinando deveria estar relacionada a estudos
como o de David Halberstam em "The Powers that Be" (desconheço tradução
brasileira), a propósito do açambarcamento capital-midiático dos
processos sociais, desde o controle eleitoral, por meios de
monopolização dos canais de financiamento e especialmente pela
manipulação propagandística vendável da imagem dos políticos, ao
controle sobre a cultura por diversos modos. Não só a censura rigorosa
sobre a informação publicada nos mass midia pelos seus proprietários, de
modo a eliminar ou truncar informações verídicas ao conhecimento do
público para tentar condicionar a opinião, ou a programação culta e
socialmente saudável para restringir as apresentações ao níveis não só
banalmente infantilizados mas ostensivamente sedutores aos baixos
instintos. Mas pelo crescente monopólio dos mass mídia como veículo de
cultura, recalcando a heterogeneidade das produções e o letramento
escolar.
Argumentou-se
que essas formas de terrorismo midiático eram típicas da América do
Norte, e é algo irônico que enquanto intelectuais norte-americanos dos
anos oitenta consideravam que o terceiro mundo não tem cisão de público e
privado, desde várias décadas antes intelectuais europeus tinham o
hábito de atribuir a inexistência dessa cisão aos norte-americanos.
Estatísticas e do contraste foram ostentadas, como na campanha de
Jacques Fauvet, diretor do Le Monde nos anos setenta, contra a "mídia
intoxicante" de apelação violenta, na defesa do livro e da imprensa
escrita (ver a entrevista de Fauvet na Enciclopédia Salvat, volume sobre
"As notícias e a informação"). O próprio Halberstam ressalvou que o
monopólio midiático sobre as fontes culturais era algo típico dos
americanos como uma defasagem relativamente a demais países
desenvolvidos, e também Raymond Aron ironizou, em "O espectador
engajado", que o controle terrorista sobre a informação era uma
característica da mídia não europeia, pois na Europa o proprietário só
se antagonizava com um ou dois temas, não se intrometendo com o resto
quanto aos informes dos repórteres. E de fato as constatações de Riesman
sobre a mudança social no capitalismo recente se atém ao contexto
norte-americano, onde caberia aqui ressaltar a observação de Pierre
George ("O mundo atual") a propósito de se tratar nos USA de um
neocapitalismo, diverso do europeu clássico porque uma produção
focalizada nos bens de consumo, enquanto a europeia focaliza os bens de
produção ou indústria de base. Essa indústria dos bens de consumo seria
acoplada tipicamente a uma psicologia social de alocação do produto no
mercado consumidor - o que torna possivelmente relevante o fato de
Watson, o pai do behaviorismo, que se gabava de poder fabricar qualquer
qualificação em qualquer pessoa, por condicionamento, ter se tornado
influente no negócio de propaganda após ter sido rejeitado pelos seus
pares na psicologia devido a um divórcio escandaloso e um segundo
casamento (cf. Hillix e Marx, "Sistemas e teorias em Psicologia") .
É
bastante quanto a isso lembrar que até hoje não há nem mesmo no Brasil
nada parecido com a propaganda eleitoral como há na América do Norte,
onde se ostentam anúncios de candidatos lado a lado com os de
Alka-Seltzer e marcas de cigarro. Porém a americanização do mercado tem
sido uma constante internacionalmente após 1945, e como vimos análises
críticas similares a de Riesman quanto à mudança social do capitalismo
recente foram comuns também na Europa. Recentemente no Brasil
"globalizado" houve a monopolização da campanha eleitoral pela imagem de
artistas, inclusive interenacionais que aqui vinham se apresentar,
obrigando assim aos jovens que iam a shows compactuarem com o explícito
direcionamento deles ao voto, e um loby direcionado na imprensa.
Comparado ao que a prática do anúncio pago seria até mais discreto. Não
importando o quão impactante tenham sido as denúncias anteriores à
globalização, nada se compara ao monopólio da "indústria cultural" na
era da revolução microinformática, a que tenho designado "dominação
info-midiática" em que empresas tem monopólio planetário. Por aí ao
menos uma proposta de definição da pós-modernidade, como era
pós-industrial, deixou de ter sentido, uma vez que a revolução
micro-informática transforma e amplia radicalmente os setores de
informação e serviços como a definição poderia prever, ela é basicamente
um ramo de negócios industrial que açambarca a pesquisa científica.
Assim
também não seria negligenciável observar que entre os anos setenta e
oitenta, até a globalização nos finais dos anos noventa, houve uma
tendência "politicamente correta" na linguagem midiática, provavelmente
decorrente não só da trajetória crítica que nessa altura se tornara
influente - nesse sentido a publicação de Halberstam nos anos oitenta
parece ser um ápice. Mas também dos tempos da liberação proveniente dos
movimentos sociais como maio de 68 e similares, assim como a mentalidade
que os nutria. O que não devemos a meu ver confundir com a exploração
comercial ou a "decadência da burguesia", ainda que indubitavelmente a
propaganda da liberdade ocidental tenha sido investida na época da
guerra fria. Mas de fato sendo antes fenômenos de contestação ao status
quo e mudança social culturalmente embasada tanto na própria trajetória,
por aí a constatável influência, como em transformações nas ciências
humanas, keynesianismo, democratização do ensino, generalização de bens
culturais baratos pela proliferação de mass midia editorial - o best
seller citado de Halbestam, com mais de mil páginas, está editado em
papel jornal, livro de bolso, assim também o francês de Claude Julien
sobre o imperialismo americano - fluxo de intelectuais europeus na
América, fluxo de intercâmbios multiculturais nas artes e na sociedade
como influências negra, latino-americana, oriental, e também a
influência política do próprio socialismo, não obstante expoentes de
esquerda local, inclusive reichianos, repudiarem as revoluções do
comportamento, sexuais, etc.
A
globalização e generalização do neoliberalismo econômico representou
uma regressão chocante dos programas midiáticos e publicidade, até
agora, no bojo de um fechamento social repressivo notável. Tratam-se na
mídia atual da praga de ostentação de valores nazistas assassinos,
encenação de contrastes genotípicos violentos, perseguição aberta a
pessoas da sociedade que não tenham motivos de competição ou patologia
social paranoica, etc., tudo o que faria inveja até a um Jim Aubrey, o
produtor da cbs que segundo Halberstam introduziu o baixo parâmetro na
televisão nos anos cinquenta, inclusive a exploração sexual da imagem
feminina jovem. Isso, além do principal fator de mudança história atual,
que ainda está inefável, a saber, a ruptura da privacidade de
documentos privados, escritos ou civis, pelas possibilidades de
falseamento dos conteúdos ou de molestação radical por agentes de
intrusão computacional por parte de agentes particulares ou políticos.
Um
tema também não negligenciável é a relação de mídia e esquerdas. Não
basta observar que a mídia persegue a esquerda - ou perseguia, antes dos
tempos atuais do "comunismo de mercado" e diversificação pragmática dos
interesses políticos, conforme já observamos a propósito das eleições
recentes no Brasil. Mas também não basta ripostar que não há nada no
capital de mídia atuando nos países não totalitários que se assemelhe ao
que nestes ocorre programaticamente. Pois, sem pretender justificar
absurdos - como os que tenho divulgado como o projeto de Samir Tabet de
usar a mídia para perseguir personalidades não por ele julgáveis
científicas - o que poria fora da ciência Feynmans, Einsteins e
Prigogines, que definitivamente não se ajustam ao avesso de sonhadores
poéticos - e até línguas como o árabe ainda não reformulado pela
tecnologia, ou como a crítica de Heloneida Studart às donas de casa
julgadas por ela todas retardadas mentais assim como exemplificaria o
fato de se oporem a programações violentas da mídia - quando se trata de
políticas de cultura nacionais nos países comunistas as leis são
explicitadas, enquanto a liberdade de expressão é garantia
constitucional dos países ditos liberais. E aquilo de que se trata na
trajetória crítica que estamos estudando é o contraste entre a
legalidade instituída e as práticas reais nessas sociedades
capital-imperialistas.
O
incremento das práticas ilegais e para-legais que foram típicas do
imperialismo na regiões colonizadas é pois o traço conspícuo da história
recente, invadindo cada vez mais a sociedade colonizadora. A sociologia
do crime mostrou que as taxas de criminalidade são protagonizadas não
por indivíduos de status usualmente alvo de preconceito pela condição de
carência ou cor da pele mas pela firma norte-americana. Assim vemos que
a diferença entre a sociologia operacional, que lida com taxas, e
analítica como a de Riesman, na verdade define menos do que parece. Como
Claude Julien mostrou a propósito da ação do capital de mídia na
iniciação e estrutura do imperialismo nos USA, fica claro que não podia
ser de outro modo, o capitalismo sendo imperialismo implica algo bem
oposto à empresa racional-legal weberiana ou ao desenvolvimento técnico
marxista, ambos concebíveis como desenvolvimento intrínseco do que seria
a cultura europeia evoluindo de uma origem grega clássica. O
"Confissões de Mario Puzzo e revelações do Chefão" sugere a linha
funcional de explicação da generalização do suborno na normalidade
burguesa norte-americana, assim em termos de necessidade de
complementação dos salários que na verdade ficam aquém dos padrões de
consumação propagandística. Tem circulado na internet documentários como
"nova york contra o crime" e filmes como "o irlandês' de Scorsese,
mostrando a total subsunção da indústria, comércio e sindicatos
norte-americanos pelo crime organizado principalmente italiano. Mas de
fato a explicação é mais estrutural, a meu ver, a partir da necessidade
dos grupos que forçam a mudança da democracia para o imperialismo,
dominarem também internamente, alijando pois os grupos e instituições
legais - como especialmente Claude Julien e Halberstam documentaram a
propósito das atividades do capital midiático. Já o AFL-CIO, a maior
central de sindicatos norte-americana, foi documentada fornecedora de
capitais para atuação imperialista da CIA no exterior, o financiamento
dos golpes por ação ilegal da CIA no Irã e América Latina foi feito
pelas multinacionais, lá petroleiras, aqui de vária extração, etc.
Aqui
estarei focalizando a especificidade do tema do sexo nessa trajetória
da crítica da cultura recente, portanto visando especialmente McLuhan e
Riesman. Essa trajetória temática pode não parecer diretamente
relacionado ao tema capital da ameaça neonazista hitlerista que paira
sobre nós explicitamente, agora, com necessariamente implicação do ônus
do investimento bélico, algo impensável antes da "globalização" dos anos noventa.. A propósito do que, como Putin explica, "Operações
de combate em grande escala envolvendo armas pesadas, artilharia,
tanques e aeronaves não param em Donbass desde 2014", como meio de
agressão dos hitleristas às etnias. "Tudo o que estamos fazendo hoje,
como parte da 'operação militar especial', é uma tentativa de parar esta
guerra. Este é o sentido da nossa operação – proteger as pessoas que vivem nesses territórios." (https://oantagonista.uol.com.br/mundo/vitoria-da-russia-na-ucrania-e-inevitavel-diz-putin/)
Assim,
trata-se de parar o nazismo hitlerista que desde os anos oitenta até
agora transita da agitação social ao golpe de Estado ucraniano, o que a
Russia está vitoriosamente combatendo. Contudo é preciso refletir sobre
os motivos do cegamento da sociedade ao risco que corre pelo nazismo, a
identificação com valores da violência imperialista arcaica. A
trajetória crítica que estaremos focalizando visa definir as estruturas
institucionais, i.e., os discursos que abrangem mensagens e práticas
pelas quais a sociedade imperialista funciona de modo aversivo à
liberdade constitucional que a evolução da humanidade favoreceu, como
legalidade e emancipação subjetiva, de modo que o neonazismo não parece
já algo fortuito, se decorre da explicitação do que estava difuso a
partir da mudança da burguesia, desde agente das independências
nacionais à exploração das potências neocoloniais e após 1945
francamente imperialistas ao nível propagandístico de "superpotência". É
bastante conhecido o fato de que nessa mudança que data da transição do
século XIX ao XX, a individualização dos agentes sociais foi
antagonizada pelas formações monopolísticas que açambarcaram o mercado
contra a livre empresa, mas o nexo com o imperialismo ainda não foi por
toda a parte equacionado a ponto de mudar a definição do capitalismo
como assimetria internacional do capital, do colonialismo ao
imperialismo. Também não se tornou ainda bastante corrente a natureza da
mudança social que os autores que aqui estamos referenciando tem
conceituado, mesmo se eles não são de modo algum desconhecidos. O papel
do sexo a partir da inclusão dos antagonismos de "gênero" - não apenas
as funções sociais ligadas à fisiologia - na teoria social desde o que
vem se designando pós-modernismo tem se tornado sempre mais relevante,
mas a relação entre os antagonismos de gênero e a mudança social mais
ampla relacionada à natureza do capitalismo tecno-midiático ainda não
está desenvolvida, ainda que entre Riesman e McLuhan já tenha havido a
inclusão dessa problemática.
Se
há algo que devemos pois pretender garantir por todos os meios, é a
segurança do sujeito emancipado, que a modernidade prometia sem cumprir,
e que tem tornado a alçar a voz depois de ter sofrido a decepção das
pretensões de grupos supostos privilegiados pela própria marcha da
história.
II)
"A
Multidão Solitária", título do livro de David Riesman lançado em 1950,
conserva um interesse atual que transita do seu locus originário, a
sociologia da cultura na sociedade industrial, a algo da amplitude de
uma filosofia da história interessada na auto-concepção da "Modernidade"
como agência do assim designável "Ocidente". Em contraste com o
conceito oitocentista do ser "autodirigido", orientado por e para si
mesmo, esse ser que exclusivamente na modernidade ocidental teria se
produzido como produto da emancipação histórica, Riesman constata nas
sociedades capitalistas do século XX, exemplarmente a América, um ser
que ele conceituou "alterodirigido" que não deixa de se supor um ego,
não se confunde imediatamente com aquele comportamento de massas que
conforme Freud ("Psicologia das massas e análise do eu") entre outros
autores é o oposto da inteligência e percepção próprias de um ego
desenvolvido. Não solvido na inconsciência coletiva que Freud tão
habilmente analisa de modo bem irredutível aos idealismos de Jung, o
"alterodirigido" de Riesman é porém ainda um ser que espera que as ações
próprias estejam em conformidade com a dos demais, agindo somente
conforme esse imperativo. As ações próprias não são para o sujeito,
mesmo se elas são do sujeito - conforme o que podemos usar aqui da
terminologia de Hegel opondo o "para si" ao "em si".
Com
o sujeito alter-dirigido, esse novo paradoxo da propaganda ou indústria
cultural, o correlato de uma tradição que se pudesse analisar como a um
discurso incorporado atuando como meio de sentido, significados ideais
co-extensivos a uma série de práticas comunitárias, interligadas, que
constituem papeis sociais, não é o que compõe o que contudo subsiste na
forma de um "establishment", a série de requisitos formais dos quais
depende o status da pertença sujeito-sociedade.
Aqui
eu desejaria aproximar as análises de Riesman a propósito do
comportamento "alterodirigido" ao conceito de Marcuse da sociedade
industrial como "establishment". Inversamente ao universo da legislação
dos legisladores, conforme a moral autônoma de Piaget como conceito apto
a captar o espírito das constituições nacionais, o "establishment" é um
mundo de normas cujo fundamento é avesso ao princípio da mobilidade
social que devia estar subjacente à promessa burguesa da emancipação
subjetiva e do pressuposto industrial da ascensão universal da qualidade
de vida. O establishment dispõe o princípio do "desempenho" que se
internaliza como mundo de obrigações discriminantes dos sujeitos
enquanto correlatos de ocupações e deveres prescritos.
Porém
é a priori, é um aparato legal, não meramente coletivo no sentido
sociológico do termo, o primitivo "comunitário" oposto ao desenvolvido
como à "sociedade" de contrato, conforme o sentido estrito desses dois
termos, a gemeinschaft e a geselschaft , que a sociologia de Weber,
Tönnies e outros consagraram. Isso, ainda que após 1945 essa oposição já
houvesse sido superada para se atribuir também à gemeinschaft o status
de "sociedade" mas conservando-se a oposição agora nomeada entre
sociedades tradicionais, primitivas e/ou antigas, e sociedades
desenvolvidas, industriais. Aqui precisamos fazer espaço a uma
consideração sobre essa demarcação sociológica, até podermos retornar ao
tema.
A
oposição inicial de comunidade e sociedade foi superada de um modo
abrangente porque já se admitia que sociedades tradicionais pudessem
evoluir, por aí a emergência do conceito de sociedades em
desenvolvimento - que desde o Clube de Roma, nos anos setenta, tornou
problemático devido a questão ecológica do crescimento industrial, mas
foram outros motivos, mais na ordem geopolítica como a mudança do
capitalismo para a "globalização" de multinacionais e reserva de saber
tecnológico integrado, que implicaram a atual cartografia geopolítica
planisférica definida nos termos do conflito norte e sul, exclusivamente
sociedades desenvolvidas e sub-desenvolvidas definidas por critérios
econômicos e níveis da qualidade de vida. Como essa atualidade está
ligada à emergência do que se tem proposto como pós-modernidade, vemos
que na perspectiva histórica da mudança considerada o conceito de
modernidade como processo planetarizável da emancipação do Homem
prevaleceu com o sentido de sociedades em desenvolvimento, ao contrário
da sociologia de inícios do século passado em que o processo
emancipatório era pensado criticamente como possível apenas por
substituição do primitivo pelo civilizado.
Na
atualidade portanto temos um paradoxo histórico, pois por um lado
pensamos em termos de modernidade, processo emancipatório global, mas
por outro lado o limite ecológico e a reserva de patentes das
multinacionais se antagoniza a essa constante de dois séculos de teoria
política e pensamento humano. A terminologia do "império" tendeu a
substituir a de "imperialismo" desde pelo menos o livro de Claude Julien
sobre a América, publicado em 1968, como uma consciência pervasiva da
regressão ao estado de segregação colonial que sustentou tipicamente as
monarquias absolutas do século XVII. Estudos mostrando a natureza
recolonizadora da "globalização" ("internacionalização da economia") são
agora urgentes.
A
pós-modernidade como rubrica que vem sendo proposta desde os anos
oitenta não foi inicialmente pensada nos termos de uma dicotomia
paralisante assim, mas bem inversamente, no auge da propaganda liberal
do estado de bem-estar social keynesiano, as teorias pós-colonial,
feminista, e similares marcaram a mudança dos produtores culturais,
desde aqueles que falavam pelas minorias e tribos primitivas descobertas
pela "vanguarda" estética e ciências sociais dos inícios do século XX,
aos próprios sujeitos desses status marginalizados, que não almejavam
estabelecer nenhum outro "centro", mas sim desfazer a oposição
centro-margem, temática essa familiar mesmo na teoria pós-estrutural
como em Derrida. Mas irredutivelmente até ao pós-estruturalismo, esses
sujeitos, de modo explícito e consciente ou nas bordas do que
expressavam, não reconheciam mais qualquer unicidade do "ocidente" como
agência da "modernidade", nenhuma totalização possível da cultura ou da
sociedade, atravessadas como são por práticas e origens heterogêneas,
enquanto por outro lado, aparatos de emancipação supostos unicamente
pensáveis na modernidade vinham sendo descobertos atribuíveis a
expoentes de culturas não moderno-"ocidentais". Hoje, ou já desde os
albores do século XXI, porém, a "globalização" impondo por meios
mecânicos a padronização midiática de linguagens e comportamentos, em
meio às mudanças que situamos, torna mais complexo ainda o estatuto do
termo "pós-moderno". O interesse da concepção do sujeito alterodirigido
de Riesman como epifenômeno da sociedade imperialista se torna pois bem
atualizado.
Como
vimos esse conceito se mostra adequado ao sujeito do "establishment",
que não pelo fato de ser um universo de normas de desempenho
pre-estabelecidas, deixaria de ser conceituado como sociedade
industrial. Como aparato legal o establishment não está necessariamente
representado discursivamente na mente do sujeito. Ele pode
conhecer os códigos que estabelecem-se como leis, mas o quanto possa
perceber, sabe que é tão complexo que só um especialista, um advogado,
um juiz, e profissionais correlacionados realmente o apreendem, e mesmo
assim a forma da apreensão é como entre um cientista e sua ciência, não
ao modo de um sacerdote e a doutrina religiosa que professa.
Os
textos que aqui estudaremos a propósito do status alter-dirigido do
sujeito da consumação desde o século XX nos permite relativizar a
confiança que ainda Franz Fanon conserva, entre o estado anômalo de
casta, quando se trata da pseudo-burguesia dos países sub-desenvolvidos,
testas-de-ferro do imperialismo, e o que seria a burguesia propriamente
dita dos países centrais. Pois não há apenas uma contradição visível
nisso pelo que a burguesia desenvolvida é não o modelo da modernidade
como progresso político e científico do liberalismo constitucional, mas a
agência da dominação da margem. Resta a questão da mentalidade dessa
burguesia cujo caráter de agência dominadora em total contraste com a
propaganda da modernidade precisa se expressar de algum modo ao nível da
mentalidade.
Essa
forma de apreensão da sociedade como" establishment", conforme o termo
de Marcuse, desde a segunda metade do século passado, não rompe porém
com o que até aí era visado como a modernidade, a condição formal do
pensamento contemporâneo naquilo em que se expressa objetivamente, isto
é, no modo concreto (expresso) da filosofia e nos modos históricos das
práticas possibilitadas pelo "establishment". É de um modo irredutível a
qualquer sociedade tradicional que a ordem civil pode ser pensada na
sociedade industrial ou modernidade, como vimos. A forma pura da lei, a
priori transcendental, isto é, constituindo a disponibilidade de cada um à sua instituição em geral antes
que à regra da identificação de cada um a um conteúdo prescrito de
dever, foi o primeiro meio pelo qual o pensamento expressou e/ou
apreendeu o que após 1945 tem sido criticado e conceituado como o establishment.
Não
há agora um relato que pudesse conter, como uma explicação de sua
origem e entrelaçamento mútuo, ao mesmo tempo o conteúdo das leis – como
eram os antigos mitos ou a bíblia. Elas estão dispersas como itens
correlacionados a fatores independentes do vir a ser do social, num
corpo mutável, temporalizado, como o da constituição, em função do seu
ser tanto universal quanto em discussão no tocante ao seu caráter
adequado aos fatos, eles mesmos temporalizados, históricos.
Refletindo
mais detidamente, vemos que a série de condições de pertença ao
"establishment" não recobre o paradoxo da totalidade em devir, quanto ao
conteúdo constituído-discursivo, que perfaz a lei na modernidade. É
algo como o seu núcleo ideativo, sua condição material de possibilidade,
as condições concretas como as que prescrevem a legitimação em geral da
nacionalidade ou da profissão.
Esse nível da decisão da pertença é formal, e instituiu um outro paradoxo, pelo qual o sujeito da vontade da lei em geral só é constituinte na sua relação com a generalidade da lei em termos de generalidade de direitos e deveres, por sua já anteriormente instituída como legal
relação. Pois ele mesmo não é nem pode ser um sujeito em geral,
aristotelicamente redutível ao seu papel social-legal, este que
formalmente nem mesmo existe pois teria que ser uma prescrição unitária
do que o sujeito existencialmente "é", mas tal prescrição não é nem pode ser pensada na forma de uma lei constituída.
Com
efeito, a reflexão desse nível formal em que porém é o sujeito pensável
que fundamenta o espírito da lei, introduziu na história o
pós-kantismo, de Fichte e Schelling à preponderância, nessa matéria, de
Hegel. Mas como vemos o establishment não opera à base desse princípio
da modernidade ou evolução social-legal, ainda que se arrogue a
radicalidade da modernização. Isso na medida em que o nível condicional
da pertença na sociedade de "establishment" interpõe o paradoxo de uma
generalidade que contudo só pode ser pensada como singularidade, um a
priori formal que só pode ser realizado como condição material,
histórica. Ele deslocou assim todo pensamento possível do sujeito,
incorporado ou na abstração da generalidade da incorporação, para o
âmbito do que se designou o sujeito-objeto. O modo como isso foi feito e
o que veio a se interpor a partir dessa terminologia assim como
utilizada não é algo redutível ao transcendental kantiano da razão. O
sujeito-objeto não é só aquele que porta em si como Razão as condições
da apreensão objetiva, ele é aquele que necessariamente se apreende na apreensão objetiva, como sujeito.
O
pós-kantismo, ao desenvolver a reflexão sobre o sujeito-objeto
temporalizado na cultura, proveu o estatuto positivo do Estado
constituído como da "modernidade". Entre Hegel e Riesman, este que
produziu o conceito de sujeito "alter-dirigido", vemos que a reflexão
foi conduzida por rumos históricos ainda por pensar, na direção de uma
crítica da "modernidade" que nem sempre apreende a clareza da distinção
pela qual a crítica da modernidade sempre é feita como ela mesma
condição da modernidade.
A
obscuridade da ideação no esquecimento desse a priori histórico não
significa porém que ele não é reintroduzido ao pensar. A modernidade
semelha o éter da antiga física. Nas suas malhas todos estamos porém a
resistência que implica aos movimentos não é de um tipo que poderia ser
superada a fim de desentravá-los, pois não se possibilita pensar a
movimentação na exterioridade de um mundo etérico.
Assim
o que houve no decorrer de dois séculos foi a constatação de que o
paradoxo do nível da pertença não é dominável por um sistema, pois não é
a positividade de um laço o que ele impulsiona, mas o deslocamento
perpétuo, o espaçamento da alteridade.
A
sociologia do conhecimento, de Manheim em diante, é uma estação
importante nesse caminho, mostrando que se houve uma unidade da pertença
culturalmente apreensível na Idade Média, o mundo feudal como uma
espécie de denominador comum de todas as sociedades tradicionais, a
unidade se dispersou em esferas de status na modernidade.
O
pós-kantismo poderia, à luz dessa reordenação conceitual, ser criticado
como apenas transposição formal de uma unidade, a do sujeito da
pertença, a um mundo de status desunido. O problema aqui é que a
heterogeneidade materializada da presença, conforme a transcendência do
sujeito-objeto, em função de modos de pertença diferentes no tempo e no
espaço assim como as várias formas de Estado (despótico, oligárquico,
parlamentar) e as várias nacionalidades culturalmente discerníveis, não
cobre a dispersão do status. Entre Manheim e Riesman, vemos que as
consequências se aprofundam, assim como a manifestação delas na própria
história efetiva, pois Riesman pronuncia-se sobre o resultado de uma
mudança assinalável e não a propósito de uma condição essencializante.
Uma
sociologia do conhecimento só é possível se pudermos pensar o
sujeito-objeto, isto é, aquele ser auto-constituído que se estabeleceu
na transcendência alterizante do sentido, o desenvolvido-apreendido na
cultura, sob a forma da pertença, a coalescência privada do
"establishment".
Então
ele não pode, apenas, ser generalizado como sujeito epistêmico, pois a
episteme está agora condicionada sociologicamente, ela é predisposta na
condição do status, dispersa na alteridade das esferas da cultura como,
exemplarmente, da burguesia e do proletariado. A sociologia do
conhecimento tem por tarefa desocultar a parcialidade incógnita nas
formas aparentemente universais do significado lógico, como da
linguagem.
Mas o status, na evolução da cultura à homogeneização dos mass midia, é solvido ele mesmo em constitutivos universais, como "a saúde, a beleza, a aceitação social, o sucesso sexual"
no dizer de Galbraith (citado em Costa Lima, prefácio, organizador da
coleção de artigos "Teoria da cultura de massa", Rio de Janeiro, Saga,
s.d., p. 51).
Em suma, se o status é solvido "na felicidade", em tais constitutivos reduzida ao efeito dos produtos, há
motivos para suspeitar de que esta não se resume, inversamente ao que a
análise economicista de Galbraith acreditou, na condição "da posse e do uso de um determinado produto", ainda que os constitutivos universais sejam apenas o veículo da linguagem da propaganda deste produto.
Eles
não são universais como conteúdos do desejável, com efeito, do
contrário não poderia ter havido uma época em que eles eram,
inversamente, o oposto da felicidade ou ao menos quanto a esta, era
considerada o oposto do seu distorcido eidolon neste mundo de pecado, como na Idade Média.
Gerações
poderiam ter acreditado, por outro lado, que haviam se tornado esses
valores universais agora, mas assim como o reaver de uma verdade antes
obscurecida, a partir da conjunção da liberação da lei civil com a
aquisição do pensamento científico. Eles são valores de um ser material.
Ambos, "establishment" e cientificização, duas faces de uma mesma
moeda, a do desenvolvimento humano, histórico, ou, inversamente,
restando a tarefa de qual o determinado e qual o determinante, entre a
produção industrial, a lei civil de sujeitos existencialmente livres e a
conquista do pensamento científico.
Porém
o que David Riesman descobriu foi que o sujeito do status na
contemporaneidade não o constitui por si, como um repertório de
significados ou propriedades, independente de serem materiais ou
espirituais. Aqui estaremos utilizando o texto publicado como artigo ("O
turno da noite"), do "Teoria da cultura de massas", organizado por Luis
Costa Lima.
Como
Rieman constatou ao examinar exemplares de leitura corrente na
sociedade, o status de alguém é construído numa trama de relações com
outros sujeitos. Um livro de receitas contemporâneo exibe tipicamente os
pratos que o Sr. Fulano individualmente aprecia, e que, digamos, sua
esposa está ansiosa por saber como cozinhar com o intuito de agradá-lo.
Mas a autora as dirige discursivamente, como livro de receitas, às
outras filhas que, assim como a da autora a quem o livro é dedicado,
poderão delas desfrutar. As receitas agora, ao contrário do que se pode
constatar nos livros de receitas de épocas mais antigas da
contemporaneidade, são veículos de algo, mais que a comida que se digere
num ato específico, como uma qualidade a ser implicada no hábito do
comer.
Aqui
não importa tanto a discussão sobre se, conforme Lloyd Warner, a classe
social diferenciadora é mais uma questão de status em termos de "quem é
sociável com quem e de estilos de conduta", ou, como pensa um
senso-comum generalizado na América, "nos termos de uma mais antiga"
estrutura social, "baseada na riqueza, ocupação e posição no sentido de
coluna social". Porém, além dessas "velhas rubricas", estaria emergindo
desde meios do século XX "uma estrutura muito mais amorfa", na qual o
preponderante é a liderança da opinião, onde o
"intelectual-iletrado-mediano" se torna mais importante do que a
tradição da riqueza ou da posição profissional. Não é ser sociável com o
vizinho que importa, mas o que pode ser visto como valores comuns a
nortear escolhas entre a consumação de bens, os produtos e os serviços,
por um lado, e o sentimento subjacente ao hábito. Ninguém é livre nesse
domínio.
As
pessoas não são senão meios por onde transita a ordem das relações de
consumação as quais tipicamente formalizam a abstração das relações de
produção, assim como uma interpretação psicanalítica da doença mental a
conceitua como "uma total discordância das tendências, uma absoluta desintegração dos dois sistemas",
consciente e inconsciente, que juntos articulam a psique (Freud, S.
Obras completas, "O inconsciente", São Paulo, Cia das letras, 2010, V.
12).
O
sujeito alterodirigido riesmaniano está reduzido ao objeto, por sua vez
este está reduzido ao ser simplesmente dado da coisa, o estabelecido
não corresponde ao processo constitutivo do sentido como o seria para um
ser autodirigido.
O
modo pelo qual o ser é simplesmente dado, mas como seu hábito
diferenciador, mais que como simples mercadoria incorporada de um poder
aquisitivo, correlaciona um efeito de aparência que desloca a essência
pela pura materialidade biológica que, ela sim, incorpora a
substancialidade do produto.
(revisado até aqui)
Vemos
que há um intervalo considerável entre o efeito galbraithiano do
produto em termos de saúde, beleza, higiene e bem-estar, e o riesmaniano
hábito diferenciador que deve transformar a saúde em performance
esportiva, a beleza em espelho da saúde e regra dos aparatos do vestir
traduzindo o fato de sentir-se bem, a higiene em decoração de
interiores. A felicidade desloca-se do ser desfrutável da coisa ao ser
comum do aparecer da coisa no hábito pelo qual se a consome. Nós somos
indivíduos numa multidão, the lonely crowd conforme o título de Riesman,
porém esta não é a simples soma de todos os que estão aí. Como Freud
comparava o estatuto de uma ideia ou impulso inconsciente que não podia
passar ao sistema consciente: "Sua procedência é determinante para
seu destino. Devemos compará-los aos mestiços das raças humanas, que no
geral semelham os brancos, mas denunciam a origem de cor em
algum traço notável e por isso são excluídos da sociedade, não
desfrutando os privilégios dos brancos".
A
exclusão do impulso na fronteira da consciência é um ato de repressão
efetuado pelo eu, o reprimido é o que conduz Freud, consequentemente, a
postular que nossa psique é composta por algo independente do nosso eu,
instintos de natureza sexual que podem conflituar com o que nosso eu
julga aceitável conscientizar-se como algo seu.
Ora,
o ponto para Freud não é que nosso eu seja injusto. A terapia
psicanalítica deve conduzi-lo a contornar a repressão, porque o
reprimido retorna na forma do sintoma, como doença, mas de fato os
instintos enquanto sexuais não tem a forma da subjetividade que Freud
pensa essencialmente a forma da compatibilidade social, inversamente são
de fato incompatíveis como desejos homicidas provenientes do ciúme,
desejos incestuosos, e demais inclinações sexualmente pervertidas.
O
que a terapia psicanalítica faz é suscitar a aceitação do ego, já que
houve algo que impediu a superação evolutiva normal daqueles estados
inconscientes, acerca de tais impulsos causadores do sintoma, mas
somente na forma da lembrança, como conscientização, de modo a votá-los,
como deve ser, ao passado, à infância, ao invés do efeito contrário que
os torna, como sintomas, dados no presente do adulto.
De
nenhum modo se trata de torná-los conscientes como práticas aceitas do
adulto. Porém não é contraditório ainda assim que sejam eles a realidade
da psique mais básica, mais primitiva, aquela que todo ser humano porta
em si na infância: "O conteúdo do Ics [inconsciente] pode ser comparado a uma população aborígine da psique".
O
primitivo ou selvagem, os povos aborígines, é portanto o que Freud
pensa em homologia explícita aoinfantil ou ao correlato do doente mental
como fixado na fase infantil.
Aqui
estando claro o preconceito da época freudiana, partilhado por Freud,
peloqual os povos não-moderno-ocidentais, não brancos europeus, como os
negros, os índios, etc., são psiquicamente atrasados comparados a estes,
mas assim eles tinham que corresponder a estados que nestes são os da
criança. O critério básico dessa classificação é o intelecto científico
alcançado pelo Ocidente, sem questionamento algum acerca da
singularidade de um mundo colonialista pós-feudal e o que lhe precede
tal que fosse necessário pensar a relação desse progresso com essa mesma
ruptura, assim como a Revolução industrial e o Estado constituído como establishment.
Vemos
que este se transformou em critério de algo mais importante ainda que a
classificação antropológica, o do sócio-político do desenvolvimento.
Estamos hoje muito envolvidos com os problemas suscitados pela história
do conceito de desenvolvimento, num momento em que a Revolução
industrial alcançou os quatro cantos do planeta, mas a noção correlata
de civilização transformou-se numa plataforma do pensamento crítico ao
invés de como antes apenas a tranquila assunção do triunfo do progresso.
Mas
assim, pelo que vimos, Freud transpõedo Eu à sexualidade inconsciente o
caráter do que é individual na acepção do que é oposto ao social ou
comunizável. Com efeito, para Riesman também a fronteira final da
avassalada individualidade, transformada no anonimato da multidão, seria
o sexo, onde somente o sujeito sentiria como uma esfera de sua perfeita
subjetividade.
Tal como na época passada, onde dominava o preconceito racial, hoje é a própria subjetividade aquilo que porta aquele "traço notável", como a característica que a tornaria insuportável à sociedade, exceto quando se trata do sexo.
Mas
assim o sexo é do mesmo modo uma regra do gosto e um modo de sentir
prescrito de fora, do mesmo modo que para Freud é uma intensidade
instintiva quase-biológica, universal e de modo nenhum o que alguém
poderia reconhecer como o sentido de si.
A
tradição, antes da sociedade industrial estar plenificada em sua
potência máxima, relegava o sexo a um plano desimportante da existência.
Entre a simples proscrição puritana e os acanhados limites impostos
pelo ativismo político interessado em melhorar as condições objetivas de
vida, conforme Riesman, o sexo estava "relegado ao seu tempo e lugar 'apropriado': "a noite, a esposa ou a prostituta, linguagem rude ocasional e devaneios".
As classes superiores, que concediam ao sexo maior importância, anteciparam o papel que hoje ele tem no establishment dos "tipos modernos alterodirigidos". Assim, "mesmo quando estamos conscientemente entediados com o sexo, ainda necessitamos obedecer ao seu estímulo", e se nos entediamos é porque "o sexo passa a saturar as horas do dia, como também a consciência das horas de recreio",
como um bem de consumo, porém de um tipo que, ao contrário de todos os
outros, não poderia ser veículo da subjugação ao gosto da massa. É então
a fronteira última do gosto pessoal, do engajamento possível do
sujeito-objeto. E assim como Freud mudou, pela altura dos anos vinte, a
sua teoria de modo a desde então reduzir à sexualidade toda forma de
interesse egoico possível na existência, sob porém um fundo de compulsão
repetitiva de estados ante-constituídos, ante-vitais como único
referencial psíquico alternativo ao sexo, Riesman vê que o sujeito
alterodirigido canaliza para o sexo toda a sua excitação, pois "recorre a ele como uma reafirmação de que se encontra vivo", de fato uma e única. Mas "a
pessoa autodirigida, conduzida pelo seu giroscópio interno e orientada
para os problemas mais externos da produção, não necessitava desta
prova", encontrava-se em tudo aquilo que fazia.
O
alterodirigido não faz fronteira entre esta ou aquela aquisição
material, pois todas são mais ou menos equivalentes não obstante o preço
maior ou menor, e em todo caso todas estarão superadas no ano que vem,
quando novos modelos serão lançados obrigatoriamente, e também não faz
fronteira entre a infância e a maturidade, pois desde o início a
consumação é sempre assim.
Se o sexo é então a última fronteira, contudo "o sexo hoje em dia leva uma carga psíquica demasiada para que seja realmente divertido para os alterodirigidos".
Se não se pode zombar do sexo como na época dos Contes drolatiques de Balzac, essa enorme importância faz dele um "ascetismo disfarçado" através do qual "ele se torna ao mesmo tempo um negócio por demais ansioso e uma ilusão por demais sagrada".
Se o sexo alterodirigido não deixa de comportar uma dimensão de
"competição ansiosa", como um ingrediente da ascensão social tal qual
fôra sempre nos ambientes tradicionais especialmente como veículo de
alcançar status por mulheres num mundo de homens, estes são agora "casos excepcionais", pois "a procura de experiência na fronteira do sexo é, na era alterodirigida, destituída de outros motivos ulteriores".
E
de toda essa cuidadosa, brilhante, honesta análise riesmaniana, podemos
obter uma fórmula lapidar como a enunciada por Marshal MacLuham. A
sociedade contemporânea nos faz compreender que "o meio é a mensagem", inversamente
à cultura intelectual do livro, disseminada pela descoberta da
impressão tipográfica que disseminou a Galáxia de Gutemberg como
condição de possibilidade da revolução industrial, e que dissociava a
mensagem do veículo como se fosse autônoma, assim como dissociava a
visão dos demais sentidos, fragmentando a totalidade da recepção.
Mas
se a sociedade contemporânea é pós-imprensa, e nos faz entender o
caráter intrínseco do meio na mensagem, isso não apenas porque a própria
mensagem na sociedade contemporânea é veiculada por mass mídias como
tecnologias que veiculam mais que uma mensagem de palavras, também, ao
mesmo tempo que verbal, sonora e visual ("verbivocovisual"). Muito mais
porque "cinema, rádio e televisão" – antes da micro-informática que
apenas reitera e reifica a dobra tecnologia-mercado – situam a
personalidade num "novo plano de existência", na exemplaridade daquelas
personalidades que os meios fazem circular. "Elas existem não tanto em si mesmas, mas como tipos da vida coletiva sentidos e percebidos através de um meio de massa. L'il Abner, Bob Hope, o Pato Donald e Marylin Monroe tornam-se pontos de consciência coletiva e comunicação para uma sociedade inteira". (Op. cit. Teoria da cultura de massa, artigo "visão, som e fúria").
Assim
a não-dissociação ora descoberta de meio e mensagem não decorre de, ou
como, um progresso que corresponde à ordem evolutiva da sociedade
industrial. Ela é, no que tem de efeito manifesto, porém em função do
qual se a descobre como universal, uma decorrência indesejável nessa
ordem, uma inversão.
Ela
restaura a integralidade implicada na primitiva solicitação do sujeito
pelo papel social, intregralidade que a evolução civilizadora,
tipificada na cultura do livro, havia permitido romper em proveito da
independência do sujeito-objeto. Assim, como na entrevista de MacLluham à
Enciclopédia Salvat, (vol. 29, "Teoria da Imagem", 1979), implica que o
indivíduo não conserva como seu "metas e objetivos", já que todos nós estamos submersos agora num universo de "movimentos informativos que permite incorporar o homem em toda a humanidade".
Ou, numa fórmula ainda mais concisa, a eletricidade é destrutiva da subjetividade, o que implica que a tecnologia "está destruindo completamente o mundo ocidental".
O
que vimos estar em estrita concordância com a teoria ocidental que,
desde o pós-kantismo de Hegel a Freud e David Riesman, situam o ocidente
como a evolução psico-social da subjetividade privada. Justamente o
dogma que o pós-modernismo vem questionando, mas para atravessar a
oposição de um ocidente unilateral do progresso a um mundo que já não se
crê unificável apenas pelo rótulo do não-ocidental como do
pré-ego-lógico.
.
MacLuham,
contudo, mostra-se engajado nas possibilidades de uma teoria
construtiva, mais que apenas o balanço de uma destrutividade
irremediável. No artigo que citamos, o Visão, Som e Fúria" ( 1954), ele
nota: "o que temos de defender hoje não são os valores desenvolvidos em qualquer cultura" definida, "ou por qualquer modo de comunicação. A tecnologia moderna pretende tentar uma transformação total do homem e do seu meio, o
que por seu turno exige a inspeção e defesa de todos os valores
humanos. E pelo que respeita ao mero auxílio humano, a cidadela desta
defesa deve estar localizada na consciência analítica da natureza do
processo criador envolvido no conhecimento humano. Pois é nessa cidadela
que a ciência e a tecnologia já se estabeleceram, quanto à sua
manipulação dos novos meios".
Por
um lado, o papel do sexo em Riesman, como fronteira da manutenção da
subjetividade, é em MacLuham atribuído às pioneiras produções da própria
sociedade industrial, em especial o automóvel, que, conforme ele se
expressa na entrevista, projetou-se sobre o ambiente sufocante da antiga
cidadezinha interiorana e transformou o antigo modo de vida.
Assim também explica o fato dos europeus tolerarem anúncios
publicitários no cinema enquanto os americanos o rejeitam. É que sendo
os americanos muito mais dependentes dos mass midia do que os cultos
europeus, aqueles vão ao cinema "para estar sós".
Isso não implica que MacLuham sustente sobre o sexo opinião diversa de que é em que existe, conforme o entrevistador da Salvat, "uma compensação para a vida multitudinária". Porém ao ver de MacLuham, e conforme sua resposta a esse item na entrevista, "o sexo é uma forma violenta de estabelecer a própria identidade",
sendo que "identidade" aqui significa o oposto do uso pelo qual é o
sentido coletivo do papel social. Em MacLuham "identidade" é apenas a
própria subjetividade enquanto individualidade.
Assim ele é um crítico do sexo como fronteira da individuação, uma vez que "na realidade um mundo que acredita que o sexo é tudo é um mundo sem sexo",
e a educação sexual nas escolas significa esse novo ascetismo que é no
entanto correlato da difusão da homossexualidade, a seu ver o contrário
da sexualidade normal porque implica a perda da identidade. "O homem
elétrico tem tendência para se transformar em homossexual devido à
perda de identidade. Não sabe se é homem ou mulher porque, integrado
numa multidão, não é ninguém". A propósito desse julgamento, minha
intenção não é endossar o preconceito, mas questionar se aí se trata de
uma definição da homossexualidade ou de um dos motivos que lhe possa
ocasionar, entre outros que não seriam necessariamente condenáveis. Como
a problemática do sexo e do gênero ancora a elaboração deste meu
estudo, à frente espero retornar a esse tópico.
Por
outro lado, o trajeto distópico da retribalização a que os meios de
massa elétricos conduzem pelo artifício que desconecta o usuário do
ambiente circundante e o reconecta exclusivamente ao meio que solicita
estruturas físicas para ser decodificado como a imagem eletrônica pelo
olho, assim integrando o usuário a essa "tribo" artificial da
programação, encontra um limite, um contra-investimento decisivo, uma
resistência, porém construtiva, imanente ao ser humano, na arte,
em
seu contraste total em relação aos mass mídia. Aqui não há uma
defasagem ao popismo e pós-modernismo, pois mesmo Barthes conserva esse
contraste, na medida em que a seu ver os meios de massa produzem a
redundância da mensagem, enquanto a arte produz bem inversamente o
questionamento das pretensões de sentido subjacentes à aparência.
Conforme argutamente constata MacLuham em seu artigo, na construção dos conhecimentos, nós humanos "temos que recriar no meio de nossos sentidos e faculdades internas o drama da existência", e aqui ele recolhe algo da tradição aristotélica mas transformando-a profundamente, pois se afirma que "isso é trabalho do Logos poietikos, o intelecto agente", é pelo meio da linguagem que o intelecto se desenvolve; "na
fala produzimos ou poetamos o mundo no sentido em que se possa dizer
que o filme papagueia o mundo. Dessa forma, as linguagens constituem as
maiores de todas as obras de arte. São os hinos coletivos à existência. Pois no próprio conhecimento reside a totalidade do processo poético".
Assim
o artista, inversamente à construção intelectual do conhecimento, não
oculta a poetização ou dramatização que nele tem lugar, mas
inversamente, "aprende a corporificar os estágios do conhecimento" naquilo que seria a "obra exterior que pode ser oferecida à contemplação".
Aqui
vemos que o produzido na arte não é tanto a obra, o conteúdo
individualizado correlato à decodificação individualizada, quanto o
meio, a linguagem, e esta é sempre coletiva na acepção de ser o próprio
meio de sentido sócio-histórico. Mais como o modo da pertença do que
aquilo que decorre circunstancialmente do modo.
Porém
se assim é, a arte não elide a singularidade em que toda linguagem é
engendrada como acontecimento de apropriação, num tempo e lugar, por um
sujeito, da pertença e do modo. Aquilo que se manifesta como obra
exterior não tem o caráter da generalidade que, inversamente, o conceito
pretende obter.
A
linguagem na arte, podemos deduzir pelo que MacLuham nos apresenta, é
ruptura do mecanicismo do sentido, daquilo que se abate do exterior
sobre o sujeito coagindo-o pelo papel social. A contemplação da obra é a
recuperação da intimidade de si na própria externalidade do que se
mostra ao sujeito que contempla ou experimenta. Assim mesmo que
a arte verdadeira tenha que incorporar o meio desse tempo da cultura de
massa, ela implica na coletividade da linguagem a ruptura da
coletivização.
Joyce,
mais que Pound e Elliot mas também estes, são artistas que ao ver de
MacLuham já expressam a condutividade "verbivocovisual" dos meios, mas
eles o fazem interrompendo o processo da deificação do coletivo, do ser
simplesmente dado da multidão, ao contrário de "papagueá-los".
Para
uma geração de sociólogos, como os da metade inicial do século XX,
poderia parecer chocante a afirmação de MacLuham, de que "o conceito de cidadezinha não impõe a existência de relações cordiais. Nas aldeias as pessoas criticam, espiam, odeiam... É como uma família: não há ambiente mais selvagem que o de uma família".
Pois
à época de Freud, a sociologia e um ramo da arte , a "vanguarda",
preocupava-se na crítica do caráter massificador da evolução da
sociedade industrial, conceituando-a no entanto como o oposto da
sociedade tradicional onde havia espaço para relações "pessoais".
Porém
hoje se torna mais claro o caráter ambíguo dos textos que construíram o
ambiente da sociologia "compreensiva" de Weber, Tönnies e outros
críticos da "impessoalidade" objetiva das "sociedades de contrato" ou
moderno-ocidentais.
Por
um lado, o caráter multitudinário ou massificador não era estritamente o
conteúdo do conceito da sociedade de contrato, industrial, da empresa
racional, em suma, moderna-ocidental. Teria havido na massificação algo
como uma consequência imprevista de atos contudo racionais, conforme a
explicação de Merton, o que para Freud e outros foi diagnosticado como
uma regressão pré-egológica. Assim desde essa época podemos notar que
estava claro que a massificação significava um contraponto à evolução em
marcha da própria liberdade como racionalidade institucional.
Por
exemplo, em Weber e na geração de críticos que dele decorrem, o caráter
estritamente individual, subjetivo (privado), da burocracia racional,
seja da empresa capitalista ou do regime democrático-legal, encontra
obstáculo na oligarquização, a formação de monopólios empresariais ou de
currais formados por protagonismos no interior de partidos políticos.
Mas
paralelamente isso apenas testemunha a continuidade de uma linha de
ataque à civilização, ou o que a isso aparenta. O que precisamos
examinar na decorrência dos intensos protestos e radical rejeição do
"ocidente" expressa nos movimentos de inícios da segunda metade do
século XX, assim como as manifestações de juventude nos USA e o "maio de
68" francês. Esse ambiente convulsionado, que a Richard Rorty pareceu
um retorno ao momento inicial do século XX quando uma onda ativista
precedeu a acomodação "funcional" da sociologia universitária a partir
dos anos vinte e trinta, foi como ele testemunhou alternado pela
esquerda estudiosa dos anos oitenta, que como o pós-estruturalismo
exemplificaria, substitui a pragmática por um interesse "metafísico" e
suprassensível, restrito aos arcanos obscuros do inconsciente. Mas de
fato, após o que eu tenho tratado como um retorno do legalismo devido a
se ter ultrapassado a reserva ocidentalista da consciência dos direitos
civis, o que temos visto na globalização instaurada nos finais dos anos
noventa são formas de participação que extrapolam o ativismo de rua,
pois o conjugam a meios de alteração da legalidade que atingem esse que
poderíamos designar, parodiando Montesquieu, o novo espírito das leis, o
status de cidadania dos sujeitos privados, fundamento da racionalidade
contemporânea.
Se bem que, as questões étnicas tem sido axiais
nisso
que vimos como ultrapassagem do que eu considero podermos afirmar como a
superação do "ocidente" na forma mesma do conceito de uma totalidade
trans-histórica de cultura, dos gregos à ciência atômica e sociedade
"burguesa", o fato é que a sexualidade e as transformações inerentes a
expectativas de gênero sexual tem sido o mais importante elemento do
atual estado de coisas.
Não
é a toa que Jane Flax considerou "pós-moderno" qualquer enfoque na
teoria a que se possa atribuir a noção de "gênero sexual" - não apenas o
papel social do sexo biológico, mas a constelação de atribuições
pensáveis da diferença "relacional" dos papeis. Para algumas feministas
comentando Flax, ela tenciona elidir a diferença, mas a meu ver, bem
inversamente, o "relacional" é o fundamento epistemológico da
atribuição. O "relacional" ocorre quando só podemos pensar um termo em
presença do oposto complementar, como entre masculino e feminino.
Assim
ao ver de Flax o pós-moderno supera as formas de pensar que ela atribui
ao aufklaerung e Kant, que limitam o correlato pensável a uma
identidade ou referência única, não "relacional". Contudo, se é patente
que assim, dotando-nos do gênero como de um objeto teórico definido, se
espera apenas bem instaurar a complexidade das problemáticas do gênero,
ao invés do "relacional" ser proposto como a solução para todas que
possam surgir, o interesse está no deslocamento da ação para o
pensamento, do compromisso com ideais de gênero à epistemologia como o
questionamento sobre como estamos pensando sobre o gênero. Não significa
condenar a ação e a proposta, mas tornar a teoria independente delas,
por não ser mais o seu problema definir o dever-ser. Como vemos esse é
mais um meio de mostrarmos como o retorno da legalidade como cisão
público-privado é a vertente singular do pós-modernismo, inversamenente à
opinião das fileiras feministas que julgam a cisão mesma um artifício
da sociedade dos homens como oposiçaõ de razão e sentimento que fundaria
modernamente o papel da mulher no lar em vez de no ambiente público das
decisões políticas. A meu ver aí há uma contradição interessante porque
ao mesmo tempo o que se exige é considerar que o lar feminino é tão
permeado pelo poder e pelo político quanto o ambiente do trabalho
masculino.
Ou
seja, como há muito a redução do feminismo à questão do mercado de
trabalho está superada pelo interesse nas experiências exclusivas das
mulheres e especialmente a libido, e assim entendemos o foco no lar, a
persistência na recusa da cisão público e privado apenas ecoa uma
crítica de classe que não é genuinamente feminista nesse sentido mais
atual. Mas se paralelamente se mostra melhor a opção legalista, mais
coerentemente assumindo-se centrada na privacidade, do que decorre em
nível público não tanto aparatosas afirmações de identidade coletiva ou
dever-ser, e sim exigências bem fundadas de leis e cumprimento de
justiça quanto a questões femininas, isto é, relacionáveis aquelas
pessoas que na sociedade são atribuídas como mulheres, ela apenas
antecede a proliferação do gênero que vem ocorrendo mais recentemente
nos termos assim designados lgbt.
A
ambiência conflitiva dessa proliferação do gênero em relação ao
feminismo, e a recusa de muitos ao lgbt como ao que não se coloca já
como apenas o objetivo da liberdade comportamental do gênero alternativo
ao binarismo masculino-feminino, mas retroage à demanda da identidade
coletiva, decorre num contexto de radicalização que vem se revelando
traumático - como nas exigências de reforma da linguagem, promiscuidade
nos banheiros públicos e atribuição de feminilidade a homens "trans" que
assim passam a competir com mulheres no terreno físico onde porém eles
continuam diferentes delas quanto à força muscular.
É
uma ironia que, se podemos criticar a concepção "queer" de Judith
Butler, porque os próprios assim designados homossexuais não
necessariamente se consideram "maricas", ao menos na conotação desse
termo que significa "covarde" veríamos uma atribuição adequada a quem
assim atua como o desportista trans que se permite competir em luta
livre com mulheres ginastas. Quanto a essa recusa da atribuição de
"maricas", ver o "Diário de um Ladrão", de Jean Genet, que não é uma
apologia do crime mas uma reconstituição autobriográfica intensamente
poética do estado miserável dos moradores de rua, entre os quais as
relações homossexuais são ao mesmo tempo que substitutivas dos laços do
parentesco ausente, meios do ganha pão. Mas poderíamos colocar também o
exemplo da Grécia antiga, onde o homossexualismo masculino era uma regra
aristocrática de classe, para uma extratificação social que unia
indissociavelmente prestígio de status e virilidade. Ou seja, onde o
homossexualismo era um comportamento masculino como um meio de evitar a
mistura com esse gênero de ser menos privilegiados na inteligência e na
força que se atribuía as mulheres.
Assim
vemos também como a confusão do gênero com o sexo está imbricada a
recusa da cisão público-privado, na medida em que a carteira de
identidade, documento de identificação civil, sendo feita para que
outros possam atribuir a invariável do sexo biológico, meio pelo qual se
pode verificar a legalidade do porte do documento civil, tem sido
produzida como opção íntima de gênero, o que não comporta
necessariamente função alguma de verificação pública.
Nossa
questão "epistemológica" do gênero poderia se revelar bem útil aqui,
como um modo de retomarmos aos objetivos da emancipação subjetiva que as
questões do gênero apenas poderiam visar ampliar caso pretendessem ter
qualquer pertinência ou não se confundirem com retrocessos autoritários
flagrantes. Nesse sentido o que me parece necessário agora é ligar a
exigência epistemológica quanto ao gênero, à questão do inconsciente,
que não se esgota no pós-estruturalismo, e inversamente a Rorty não se
limita a um antagonismo da prática por isso que nem por ser teoria deixa
de estar ligada ao horizonte da crítica do discurso a partir da
semiótica, e particularmente da natureza infixada do significante, que
vem deslocando a noção grosseira e demasiado geral de prática ou ação
naquilo que se relaciona a problemáticas antes tratadas como
ideológicas.
Mas
introduzir a problemática do gênero na perquirição do Inconsciente
exigiria, se não reduzir o gênero ao sexo, preservar a realidade do sexo
masculino e feminino já pelo viés do psíquico naquilo em que não pode
este deixar de integrar a relação do sujeito ao real. Sem nos
comprometer aqui com as complexidades da noção de real, podemos nos
contentar com o nexo da mentalidade contemporânea e referencial
científico que nesse caso é regido pela genética.
Recusar
a genética do sexo masculino e feminino, independente das escolhas do
gênero que possam circular como desejos na cultura, a genética enquanto
realidade epistêmica, é uma propriedade de recusa do real inerente a uma
psique qualificável no rol das psicoses. Mas o que temos visto como a
coletivização de interesses convergentes com o domínio sobre a
legislação no sentido de suprimir a atribuição genética do sexo torna
problemática a qualificação. Em todo caso resta aí, relacionável às
decisões políticas entre os objetivos de preservar ou não a atribuição
do sexo independente do gênero, a tarefa teórica de interpretação do
desejo.
Pelo
que vimos acima não seria forçado julgar que a vontade de reduzir o
sexo ao gênero reflete a redução da complexidade à aparência vendável
como produto midiático nos termos da dominação restrita à fabricação de
consenso social. O efeito da incerteza quanto ao sexo parece não ser uma
decorrência fortuita, mas induzida, dos aparelhos de comunicação de
massa, que visam assim uma homogeneidade alterodirigível mais que
alterodirigida, ali onde a sociedade por si mesma expressaria, ao invés,
o heterogêneo e o múltiplo como decorrência da emancipação do privado
na legalidade civil. ... texto em elaboração ...
2 ) Três Esquemas de Contos Infantis
a)
A
proposição de que os três contos infantis mais conhecidos, em torno de
figuras femininas, podem estar estruturando esquemas de gênero não é de
modo algum algo novo. Nem sua leitura psicanalítica, onde o que se
focaliza é a inter-conexão gênero-identidade, de modo que se desloca o
antigo aporte metafísico intelectualista para estabelecer axialmente a
interdependência da sexualidade e do pensável como racionalidade.
Na
pós-modernidade a crítica à psicanálise não tem sido procedida no
sentido de um retrocesso intelectualista. Inversamente, se bem que isso
possa não ter sido já referenciado, parece-me que o mais conspícuo nesse
contexto são formas de questionamento do nexo do pensamento como
racionalidade tal como esta pode ser definida na tradição filosófica,
justamente como postulação do idêntico ou o que se designa
"objetividade" - as fórmulas aristotélicas do princípio a=a, da não
contradição, etc. - por onde a interdependência do pensável à
sexualidade deveria sustentar esse questionamento, não o inverso que
corresponde à démarche psicanalítica que vai do múltiplo à
universalidade.
Quanto
a esse desenvolvimento psicanalítico, é notório estar relacionado à
transformação moderna do pensamento ocidental, por onde o princípio de
identidade, para ser conservado, cortou o da não-contradição por meio da
dialética hegeliana. No entanto, o que as conceituações do desejo
pós-psicanalíticas, como a esquizo-análise e a gramatologia, que tiveram
seu predecessor na psicologia humanista de Jasper a Laing e Bateson,
estavam conceituando, eram registros não-ocidentais ou tratando aquilo
que para o ocidente era anormalidade, por um foco que deveria ignorar
tal premissa para escutar ou rearticular o fenômeno na sua positividade.
Quanto
ao não-ocidental do material dado a pensar, não se tratava agora apenas
de um material etnográfico cuja extensão permitisse ainda manter as
versões funcionalistas que sempre supõe redutível a uma universalidade
do significado, os conteúdos da alteridade da cultura. Não só esse
material estava já excedendo o limiar desse visível delimitado, como o
mercado cultural estava sendo povoado pelas margens – por aí, o papel
histórico da literatura americano-latina, com seu assim chamado
"realismo mágico", dos orientalismos, e inclusive do Pop, que encontrou a
alteridade no interior do ocidente apenas mudando o foco da cultura
oficial para a popular.
Ora,
o que tudo isso mantém em comum recorrentemente – em termos do que
poderíamos designar "não-ocidental" apenas como um recurso convencionado
para enfeixar o que não se mostra adequado nem à tradição metafísica,
nem à sua adaptação dialética ao menos nas formas mais padronizadas de
sua interpretação, assim questionando a própria viabilidade do conceito
de algo como "ocidente" – é o fato de que as assim chamadas categorias
do entendimento que se resumem na postulação da identidade como somente o
que é pensável e dessa postulação formulam a significação da
causalidade, das atribuições de estado, etc., isto é, que instituem o
pensamento como referência a uma unidade, não permitem descrever o que
ocorre. Não obstante, há coerência e sentido nessas experiências que
também não deixam de liberar suas próprias categorias, para uma
instrumentação teórica que não vá se comprometer de início com
pressupostos universais inviáveis a esses fenômenos. Que isso invada a
leitura da história do pensamento ocidental, é o que mais se torna
provocativo contra argumentos que supõem acomodar todo esse "pós" na
anterioridade assim posicionada tradicional, se puder ser demonstrado
que os parâmetros identitários que vieram a se estabilizar pretensamente
como o enunciável dessa tradição, na realidade não traduziram senão
opções comprometidas entre outros processos não-identitários do
conceito.
Mas,
sempre que os horizontes pós-modernos ou ao menos pós-psicanalíticos da
problematização do desejo se delinearam, eles precisaram também
explicar a deriva do pensamento "ocidental", o por que de haver essa
fixação identitária, não tanto no cerne do que ela pensa – já que seu
comprometimento político ou investimento de interesse é muitas vezes
óbvio – mas na face historicamente dominante da sua instituição. A
psicanálise se tornou um limiar cujo ultrapassamento é complicado
precisamente por que ao explicar o desejo, nomeou a vocação identitária
como sua ilusão fundamental, de modo que compreendemos a hipótese
ocidente como natural, não apenas resultado de uma imposição violenta,
ainda que a liberação do desejo esteja ao mesmo tempo sendo conceituada
como a real "normalidade", o que, não obstante, parece-me o ponto frágil
da teoria psicanalítica – ela não pode evitar assim ser um
evolucionismo, se transposta do gabinete do analista para o que
fundamentalmente é, uma leitura da sociedade e da história.
No
entanto, quando se fala em pós-psicanálise, o que se está designando
não é apenas que o material sobre que se conceitua agora são amostragens
da realização da hipótese não-ocidental do mesmo inconsciente, que
seria o dessa ilusão fundamental. Mas, sim que aquilo que essa ilusão
cauciona, o nexo do pensável com o uno-identitário, não se demonstra o
produzido nos registros do "não-ocidental". Se o ocidente parece agora o
enigma, o que se conceitua no lugar resta não menos enigmático –
haveria efetivamente "outro" inconsciente, recursivamente aquele em que o
Outro não se designa o oposto/negativo do Mesmo?
O
desenvolvimento pós-psicanalítico ganharia muito, a meu ver,
tematizando as produções do pensamento filosófico para mostrar, se não
se resumem ao que se lhe atribui fundamental como conceito
identitário-metafísico, o que pode haver de positividade no pensamento
do devir que não se deixa recapturar pelo foco da tradição. Isso tem
sido efetivamente investido, mas é preciso notar que historicamente essa
vertente apenas começou a ser demonstrada necessária nesse ambiente
pós-moderno, contra milênios de limitação do necessário à forma da
identidade.
Aqui,
não obstante, o que tematizamos é o nexo dessa forma naquilo em que
expressa um desejo – seus focos de enunciação – e nisso os contos
infantis parecem extremamente oportunos por serem aparentemente
modelares da inteligibilidade ocidental, por onde a partição dos gêneros
e o que seria sua preensão psicanalítica. A questão importante seria
assim colocada: será que, uma vez que encontrássemos a esquematização
profunda desses contos, poderíamos contrastá-los aos registros
não-ocidentais para nestes localizarmos algo irredutível a essa
esquematização? Mas assim colocada a questão seria preciso salientar que
o seu escopo é irredutível a uma hipótese tal que a resposta
alternativa fosse a universalidade do ocidente – o que, ao menos, pelo
modo como colocamos a questão resulta claramente um paralogismo. Sendo
esse paralogismo, a confusão do universal e do particular como a fórmula
ambígua de algo como "ocidente', o que a pós-modernidade tem
posicionado como o questionável em si mesmo.
b) -
A
castração é como o conceito dialético: aparentemente é onde tudo
culmina, mas na verdade isso só é assim por que desde o início trata-se
da natureza do idêntico não posta senão pela sua posição na alteridade. O
esquema que fundamenta o desejo e o pensável está, portanto, como a
castração, entre a negatividade que impulsiona todo o processo no devir,
e a afirmação que é o que percorre o processo sendo a natureza do
impulso. A afirmação é uma negação da negação; mas a negação só existe
posta frente à afirmação e relativamente a esta que não tem a natureza
de coisa sempre dada na indiferença do objeto, sendo desejo recorrente
do vivo, impulso jamais saciável posto que sempre reinstalado; ou, como
desenvolvimento no tempo, o processo é o relatável do que se põe, do
obstáculo a isso que se põe, da superação do obstáculo, do novo por do
que se põe, etc.
Por
essas considerações, vemos como deve ser feliz o encontro de
estruturalismo e psicanálise. Onde ela precisou contornar laboriosamente
a oralidade para reconstituir narrativamente a formação dos esquemas
identitários – a encenação do signo pelo variado sofrer das oposições
até a apoteótica afirmação pelo que se realiza a equivalência
Signo/signo (significante/significado), que subentende todo o drama da
finitude do sujeito – o estruturalismo resume o procedimento pelo mais
seco formalismo, ao mesmo tempo realizando na História o que seria a
maturação de uma sociedade apta a reverter sua própria neurose
constitutiva, e constitutiva de toda sociedade.
Os
três contos infantis mais populares que se estruturam em torno de
figuras femininas – "chapeuzinho vermelho", "cinderela" e "branca de
neve" – mantém em comum o fato de serem redutíveis à esquematização das
oposições fundamentais ao inconsciente psicanalítico. O seu maniqueísmo,
pelo que trata-se facilmente do antagonismo entre o bem e o mal, todos
personificados e claramente opostos, não havendo ambiguidade quanto à
natureza dos papéis, permite, a meu ver, tratá-los como um gênero
especificado. Não seria, por exemplo, o caso de Alice, onde há essa
ambiguidade, os personagens, aliás, sendo fundamentalmente ambíguos,
jamais podendo ser identificados pela menina como de todo racionais ou
bons, sem que sejam totalmente perniciosos ou maus, isto é, sem que
causem diretamente prejuízos a outrem, como o lobo, a madrasta ou a
bruxa.
Nesse
caso de Alice, encena-se a estória num mundo aproximado àquele em que
se processam os acontecimentos do mito tratado como não-ocidental, um
outro tempo para o qual às vezes até se possui um nome especial que
designa também o mundo dos sonhos. Que as características dos
personagens estejam também descompromissadas do que seria uma
recomposição convincente da concretude da sua atuação, compreende-se já
instaurado na operação de deslocamento que inere à estruturação
narrativa. Por aí, até poderíamos questionar tratar-se o mito como
"narrativa" - se para esse termo designarmos o exemplificado por
Kermode, o tic tac do relógio, entre os dois sons uma expectativa de sua
ligação sendo instalada por nós enquanto receptores, ou seja, uma
estrutura de Repetição como na conceituação de Deleuze, que inere à
nossa constituição temporalizante. O mito não-ocidental, como a história
de Alice, inversamente, constrói uma série de rupturas desde o que está
sendo aparentemente "contado", pelo insólito do poder ou do fazer dos
personagens desse outro tempo destacado da linearidade ou não
instaurador de Repetição, senão enquanto a propagação da sua estranheza,
o deslocamento sendo fundador, em vez do paralelismo dos motivos que se
encadeiam.
Os
contos infantis, aproximáveis a histórias de fadas como Cinderela - mas
não necessariamente, como nos outros dois exemplos - estão instalados,
inversamente, no mais crônico dos tempos – aquele, totalmente
linearizado, que não obstante foi instaurado por uma transgressão
primeira, a qual trata-se de reverter. Aqui a terminologia da "Lógica do
Sentido", que identifica o presente com Cronos de acordo com as versões
estóicas, se presta a um duplo-senso, pois o crônico é também termo que
designa uma paixão ou uma patologia de que se sofre : como no francês /patir/ oposto de /agir/.
Eles
são assim bem designáveis como narrativas, a linearização sendo seu
constituinte desde a macroestrutura à microestrutura, e desde o plano
cotextual ao figurativo. Uma vez que a linearização é a constante, os
elementos opositivos estão dados em séries que habilitam transpor para
esse plano esquemático-semiótico o que ocorre em nível de estória. A
estrutura profunda desencadeia a oposição fundamental feminino-masculino
equivalente que encena o percurso da negatividade à afirmação que
corresponde à realização da presença do masculino.
Mas
o que varia entre as histórias é a natureza do que se mostra
sintomático, isto é, o que é crônico ou encenado como paixão
inconsciente, o que causa os acontecimentos da estória: o défict ou
negação estrutural do plano feminino, que tem que conseguir ser
revertido até a afirmação que é a conversão da centralidade na figura
masculina, caçador ou príncipe. Isso ao mesmo tempo restitui a
polaridade dos dois papeis, enquanto a negatividade é sintoma em termos
da unicidade da figura feminina, que assim está duplamente investida
como falta, desde que na polaridade esse lugar é do passivo em relação à
libido que é da natureza do ativo. O personagem central (feminino)
nesse gênero literário jamais age, somente sofre os acontecimentos ou é
objeto da ação alheia ( má ou boa, conforme os personagens que lhe
prejudicam ou auxiliam) e só realiza seu feito heróico cedendo a
centralidade ao ativo (masculino).
A
natureza do sintomático se torna então o que permite desenvolver a
estória/paixão, como variável do que pode ocorrer em termos da
transgressão fundamental que é o que instala a unicidade – a
feminilidade pensável , posição fálica da mãe ou desejo, que
não pode ser senão fonte de sofrimento ainda que ao mesmo tempo a
instauração transgressora que desencadeia um desejo – do ser salvo, ou
da ação, isto é, do masculino que desloca o que ameaça realmente a
unicidade, o despedaçamento, pela dualidade saudável comandada pelo
ativo onde o passivo resta como Khôra, lugar e impensável.
O
gênero pode então ser esquematizado pelos momentos estruturalmente
posicionados:I) instauração do sintoma e cena da paixão; II) encenação
da reversão do sofrimento na paixão; III) instauração do ativo que
nomeia a cura/oposto do sintoma. Essa instauração é invariavelmente o
feito de expressar a equivalência estrita das séries opostas, sendo a
transgressão uma distorção tal que elas pareciam contraditórias.
O
que o esquema realiza, enquanto encenado por figuras femininas, é a
natureza ativa/masculina (pai) do desejo, mas a assunção pela qual a
verdade do desejo somente é desempenhada pelo impensável/passivo ou
feminino (mãe). O gênero esquematiza o movimento da negatividade
(feminino/castração) à positividade (masculino/libido), mas como
trânsito permitido (contornando a censura/transgressão) do plano da
lei/forma/simbólico/intelecto/ (pai) ao da efetividade/imaginação,
atuação, afetividade (mãe).
A
superação da censura, ou da transgressão, deve inverter a postulação de
fato da natureza e da verdade, posto que a verdade do desejo (mãe) é o
que deve transitar para o simbólico desde sua posição originariamente
formada no imaginário, convertendo-se no saber da natureza do desejo;
enquanto que a natureza do desejo é o que deve transitar para a verdade
enquanto correlato real do enunciável. O trânsito das polaridades
instaura no que não há no meio deles, um haver/ser que é o sujeito
(identidade), se a superação é efetivada, e o que se contorna é a
fragmentação/anulação desse efeito-sujeito que resulta da posição ideal
dos termos simétricos.
1) Chapeuzinho Vermelho e o Excesso Feminino
A
instauração macroestrutural, o equivalente da feminilidade, é o tropo
inconsciente do excesso, só havendo inicialmente personagens femininas.
Os doces que devem ser presenteados pela neta figuram o excesso,
nomeando a natureza do que eles simbolizam por inversão, a falta
(fome/ausência = feminilidade). A transgressão (ir pela floresta)
enuncia a qualificação situante do excesso (mal).
Estando
o tropo atuando por inversão, o oposto da feminilidade surge
inicialmente como recirculação do excesso – o lobo (mau). Na encenação
da paixão chega-se ao clímax do procedimento – diálogo de chapeuzinho e o
lobo, onde o excesso é figurado pelo "grande" dos seus detalhes
anatômicos em relação ao esperável no lugar ocupado que seria o da avó.
O
excesso do feminino se torna ameaçado pelo masculino na possibilidade
dele ser igualmente excessivo – paixão que instaurava o sintoma como
temor de só haver a natureza do feminino (castração).
Ora,
quando o excesso é nomeado/localizado na boca – que ressoa a figura dos
doces – ele é como que posto frente à frente com o seu oposto, a
falta/fome/castração que é o que está desde o início invertida no
procedimento sintomático.
Essa
equivalência só pode ter sido feita pelo poder – o caçador que já
entrou no armário – e desencadeia o momento da realização do elemento
masculino. O caçador irrompe do armário, a avó sai da barriga do lobo.
A
cura é o que efetivamente ocorre, o plano dos fatos sendo invertido
pelo plano da expressão, mas essa inversão agora funcionando não como a
contradição, e sim como a barra de articulação entre os planos: o
caçador entra na cena e a menina pode agora estar situada por relação ao
caçador-ativo como Khôra-passiva, reconquistando assim porém a sua
própria esfera de atuação.
A
equivalência restaurada se nomeia da exteriorização como mau (floresta)
à exteriorização como bem (barriga do lobo), o operante imaginário da
equivalência transcendental sendo o caçador.
2) Cinderela e a ausência móvel
A
instauração do sintoma é feita pelo tropo do ocultamento – cinderela ou
na variante da gata borralheira, em todo caso se torna recalcada
(cozinha/borralho) pelas filhas da madrasta que ocupam o lugar destinado
pela narrativa à visualidade social (casa/sala). O tropo está atuando
metaforicamente, o ocultamento da cinderela equivale ao excesso feminino
(a madrasta mais suas três filhas = ausência do pai, sem referência da
khôra ou mãe).
A
hiância da posição da mãe, simétrica ao sublinhado da presença da
madrasta, é compensada pela fada : há presença de objeto, a carruagem, e
o deslocamento do procedimento: a ocultação se torna mobilidade
(cinderela ausente na cozinha – ausente da cozinha – presente no baile).
O deslocamento pela mobilidade é encenado como re-ocultação (fuga à
meia-noite). E re-encenado pela substituição do objeto, em vez da
carruagem mover-se, agora é o sapatinho que circula pelas casas à
procura da dona. A dúvida fálica relacionada à dona do sapatinho desloca
a pressuposição anal autoritária da madrasta e das filhas sobre
Cinderela. Mas, do mesmo modo, o que se move é a castração
(falta/feminilidade/ocultável).
Há
então preenchimento do lugar hiante, quando Cinderela prova o sapatinho
de cristal, deslocando a centralidade da personagem por sua localização
como complementar ao príncipe – atividade que desencadeia a
substituição do objeto, latência/destinação na presença da
carruagem/fada que restitui a natureza polar do ativo (pai) como
complementado pelo passivo (mãe que deveria haver), a
possibilidade transgressiva (mal) sendo nesse caso o excesso feminino
poder equivaler à anulação da Khôra pela unicidade do ativo (ordem/ação
da madrasta), isto é, a possibilidade de poder haver ação da madrasta, figurada como ordem do ocultamento de Cinderela quando se trata da prova do sapato – castração fragmentadora do sujeito.
A natureza do ativo que cura o sintoma é então a ordem
do príncipe que desencadeia a mobilidade do objeto (sapato). A
equivalência restaurada se nomeia do apequenamento do status social à
pequenez dos pés da cinderela.
Há
um intermediário que parece ser a submissão da cinderela à ordem da
madrasta ( figurando a passividade saudável a que o desejo feminino deve
se destinar) como simétrico da aparição da fada (compensação assim
permitida da ausência/sobredeterminação do pai-ordem da madrasta) que
restaura o masculino na transitividade do pai (ausência/ Cinderela
ocultada) ao príncipe (presença/Cinderela encontrada).
3) Branca de Neve e a Neutralidade do Sono
Aqui
o tropo da instauração do sintoma é já o espelhamento das séries
ativo-passivo elas mesmas, mas sob a forma da oposição do uno e do
múltiplo que reúnem a sucessividade das figuras em um ou outro status
antepostos respectivamente como masculino/bom/príncipe (identidade do
sujeito, pressuposição recíproca do par) e feminino/mau/bruxa-madrasta
(fragmentação/anulação do sujeito, castração).
O
funcionamento do tropo é também deslocamento metafórico, pelo que
Branca de Neve se põe no lugar do uno por sua relação aos anões que
ocupam assim o lugar do múltiplo. A bruxa, que era a madrasta
(personagem múltiplo que abrange ainda, pela ordem, o caçador de quem
branca de neve deve fugir), re-atua o sintoma, retornando nesse disfarce
de bruxa, no qual figura a posse do uno (a maçã).
Mas
o sono desencadeado pela maçã funciona como o mecanismo reversivo da
transgressão do uno pelo múltiplo, posto que neutraliza o mal da
oposição ao não poder figurar qualquer múltiplo como simétrico desse
pseudo-uno, re-atuando o nada objetivado como castração.
O
falso-uno se desloca então, pela sobreposição do nada ao nada,
substituído pelo verdadeiro/uno também objetivado (o beijo do príncipe),
que realiza o ativo/masculino da libido enquanto polaridade
príncipe-branca de neve (que acorda, compensando a impossibilidade da
simetria ao uno-maçã pela ação do acordar que a instaura, contudo,
somente no simbólico-passivo ou Khôra).
O
sintoma encena a possibilidade da oposição ativo/passivo ser falsa por
não haver unidade possível senão como anulação/fragmentação do passivo
pelo ativo. Como nesse caso a equivalência não foi instaurada por
qualquer figura do excesso, senão pelas séries antepostas, o que deve
corresponder à cura é a conversão da divergência das séries em
convergência das séries, e só por esse meio não-direto se pode nomear a
equivalência como neutralização cruzada. A divergência das séries era a
neutralização da positividade da oposição ativo/passivo; a convergência
das séries opera a neutralização da possibilidade da negatividade dessa
oposição, o que autoriza plenificar a libido como ativo/masculino que
subentende, ainda que como impensável, o seu lugar (Khôra ou
passivo/feminino).
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